A vida é como um dia…
De repente, sem preparação direta nenhuma você acorda.
Está certo que dentro da barriga de sua mãe (e somente da barriga de sua mãe, por enquanto) você sonhava. Isso enquanto ouvia frases, e mais frases que só quando foram ganhando sentido ao longo que se aproximava o momento de você acordar. Isso não quer dizer que você não sentia. Você sentia tudo, mas estava dormindo, e o sono torna tudo embaraçado, repleto de neblina, que te impedia de ver. Porém convenhamos que durante o sono não seja bem a hora de começar a ver tudo claro. Isso exige que primeiro você acorde. Seja liberto da barriga de sua mãe. E baseado somente naquilo que você ouvia de dentro da barriga de sua mãe, baseado somente no que você ouvia enquanto dormia, e lhe proporcionava, ao mesmo tempo, que sonhos maravilhosos que te davam prazer, você também tinha pesadelos, horrendos pesadelos descompassados. Pois então, baseado somente nisso, ou seja, sem preparação segura nenhuma,
você, sem mais nem menos, acorda.
Após acordarmos, geralmente espreguiçamos, como que se quiséssemos continuar adormecidos, ou simplesmente nos preparando para conhecer o dia melhor. Dia este que é um mistério. Pois por mais planejado que ele possa ser, por mais bem pensado, ou sonhado, imaginado, por melhor dizer, ele sempre tem a opção de não sair como imaginamos. O que na maioria das vezes acontece. E enquanto você passa esses, geralmente, três primeiros dias na maternidade (tem gente que gosta de espreguiçar um pouco mais), o mundo também vai se preparando para receber você. E ele sabe que você não sabe que ele te conhece. Aí tudo se acentua.
Nesses primeiros momentos de sua vida você tenta ver o que antes você apenas sonhava. Tenta brincar com o que seu pai e sua mãe te dão. Tenta fazer com que eles te dêem tudo o que você imagina precisar para poder enfrentar o dia que vem pela frente. E como um menino brincando com a comida, você toma seu café da manhã. As vezes você lembra do que ouviu de seu pai enquanto dormia, e tenta preparar seu próprio café. Acaba ficando com fome, por que não havia percebido que não daria tempo de fazer seu café, mesmo se plantasse a sementinha quando acabasse de acordar. As vezes ainda se queima, por que esqueceu que não é bonito pegar escondido o pó que o vizinho comprou. Outras vezes fatalmente fica sem pão, era de ontem, estava duro e difícil de mastigar, e resolveu não comer. Quando alcançou lá pelas 11 da matina (ou mesmo antes disso), estava tão desencorajado que faltava força de vontade pra seguir tocando a vida. Mas não foi culpa sua. Quem te forneceu pão de ontem, e te obrigou a ficar sem comer? Lembre-se que a vida não pára. Não ia esperar você ir até a padaria reclamar. E tem gente que prefere fazer isso. Acha que o dia dá um desconto. Ou até mesmo que ele aceitaria o atestado do dentista que fez um curativo na sua gengiva cortada pela casca seca e dura do pão que você (destemido como nunca, ou ingênuo) resolveu comer.
O fato é que mesmo depois de aprontar aquela bagunça toda na cozinha, seus brinquedos já não te interessam mais (tem gente que prefere ficar brincando, a evoluir e enfrentar o resto do dia). Você tem que sair e ir ao trabalho. Mas antes de se casar você tem que namorar, ou melhor, encontrar alguém de que você goste (ênfase nisso) e também alguém que goste de você. O caminho até o trabalho e a estabilidade é a escola (atualmente pode se dizer isso infelizmente, devido à visão tão pejorativa que para muitos a escola tem) na escola é onde você acha o que você gosta de fazer, e consecutivo, antes, depois disso, ou até ao mesmo tempo em que você encontra o “o que” você encontre o “quem” vai seguir fazendo isso com você. Esse quem que quando mais sério é chamado pra namorar, daí inicia-se seu estágio. Ao mesmo tempo ou (numa porcentagem de vezes levemente superior) opostamente à sua efetivação, na empresa, você também passa no estágio do namoro e se casa. Enquanto são apresentados seus projetos à administração seus filhos vão nascendo.
Daí chega a tarde, é hora de voltar pra casa (existem exceções, sempre), você pensa que já está enjoado daquele caminho, e bola outra rota. Aproveita para fazer um pit stop no bar (às vezes em um lugar mais quente), ao gostar mais daquele caminho você percebe que não era o antigo que te enjoava, mas sim o que encontraria ao terminar de percorrer, qualquer um dos caminhos que fizesse. E você resolve exteriorizar isso. Pondo todo o seu estágio a perder. (tem gente que não dá valor a isso mesmo. Em certas faculdades para se conseguir o diploma isso é essencial) Então o casamento acaba. Tente resolver tudo no consensual, pois sabemos que apesar de render mais, o litigioso é barra pesada.
Enfim chega a casa e dorme. É o fim da sua vida. E amanhã começa tudo de novo. E você vendo o que fez de errado tenta melhorar. Como se na vida pudesse também…

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