É 13 de outubro de 2007, eu estava cursando um Curso Técnico em Agropecuária, na pequena cidade de Campina Verde. O curso técnico dura 3 anos. Eu estava no meu segundo ano, e o pessoal do 3º ia fazer uma viagem para a Agrishow, em Ribeirão Preto, no estado de São Paulo. CVerde fica em Minas Gerais, e tem apenas 20 mil habitantes, sendo que 7 mil desses são residentes da zona rural. Eu sou mineiro, campinaverdense. Nessa época tinha 15 anos, mas já era bastante responsável. A diretora do curso foi avisada pelo organizador da viagem que a turma do 3º ano, devido às várias reprovações, em módulos anteriores, já não preenchia todo um ônibus, de certa forma que era aconselhável convidar alunos das outras turmas para viajarem também. É, esse foi um acontecimento que marcou, mas sobre ele vou contar num próximo texto. Hoje vou falar sobre o início de tudo, para que possam situar-se no contexto, e quando contar sobre a viagem possam entender melhor.

Esse com a mochila nas costas Sou EuA diretora era bastante severa. Uma mulher gorda, branca em demasia, muito loira, acho que era sangue alemão, ou outro sangue europeu qualquer. E pra terminar tinha nome de uma arma, não sei bem como escreve, mas acho que é como a marca Schmidt. Muito gente boa, e justa com os justos. Procurava sempre igualar os iguais e desigualar os desiguais.

Lembro-me que no início do curso, como é de se esperar existem os trotes que os veteranos dão aos novatos. E eu era um novato. Imagine só: Eu sou uma pessoa pequena, de certa forma humilde, e como sempre no começo…  Enquanto agente não conhece a escola, o curso, os colegas, que posteriormente serão seus amigos, eu estava bastante intimidado. Minha casa ficava a uns 8 Km da Escola Agrícola, esse era o nome resumido que os estudantes davam à Escola Municipal Agrícola Adolfo Alves Rezende. Um dos lugares onde, até hoje, eu passei muitos dos melhores momentos de minha vida, e vivi experiências únicas. Me proporcionou ocasiões inesquecíveis, como essa da viagem para Ribeirão Preto, que deixe me enrolar só mais um pouquinho e mais abaixo termino de contar.

Como eu ia dizendo, um pouco antes de me dispersar do ponto principal: Essa era a distância entre minha casa e a escola, pra quem mora em cidade grande é perto, mas pra nós na verdade ficava do outro lado da cidade. Na verdade era fora da cidade, bastante afastado, de certa forma que para chegar até lá, você precisava pegar a rodovia. Ela foi construída lá, por dois motivos: 1º por ser escola agrícola é preciso ter espaço, onde podem ser cultivadas desde pequenas hortas medicinais, até grandes lavouras de soja, pinhão manso (que já me fez passar maus bocados), maracujá e muitos ouros, ou ainda para a construção do galpão de cunicultura, suinocultura, curral e até a enorme pastagem da criação extensiva de gado. 2º por que quando ela foi criada os políticos julgavam que traria bastante lucro, na forma de movimento e migração de alunos interessados para nossa cidade, de forma que com o crescimento urbano seria preciso utilizar os espaços mais próximos da cidade. Dessa forma era inviável a construção dentro da cidade como qualquer outra escola normal. Daí pode-se perceber que nem em faz de conta essa era uma escola normal. E durante todo o meio de semana passava, às 12hs e 30min, na esquina de minha casa, o ônibus disponibilizado pela prefeitura para levar os alunos da cidade para a Escola Agrícola.

O caso é que mesmo morando a essa distância eu ia sempre de bicicleta para a aula, e dentro de no máximo 20 minutos, apesar das várias ladeiras verticais por onde tinha que pedalar. Eu digo dentro de 20 minutos, por que a aula começava às 13hs, sendo que conjuntamente com esse curso técnico eu cursava normalmente o ensino médio, no período matutino, e havia ganhado uma bolsa numa escola particular, na qual a aula acabava às 12hs e 15min. E nesse intervalo de 45 minutos eu corria de bicicleta para casa ao acabar a aula, trocava de roupa, tirava os materiais de ensino médio e colocava, dentro da mochila, os materiais do curso técnico, engolia faminto o delicioso almoço preparado pela minha querida mãe, e retava para a escola agrícola.

Você pode estar pensando: Para que uma correria dessas?  Por dois motivos, novamente: 1º é que por mais rápido que eu andasse eu não conseguia estar no ponto de ônibus às 12hs 30min, pois minha aula acabava apenas 15 minutos antes do ônibus passar. Eu chegava todo suado e se não bastasse, também vermelho, e quase desmaiando de tanto correr na bicicleta. Imagine só eu havia acabado de almoçar. Já ouviram falar de congestão? Almoce rápido e vá fazer exercícios que vai entender bem o que estou dizendo!

O estacionamento das bicicletas era bem do lado da sala da diretora, eu descia lá, e atravessava o corredor para chegar a minha sala. Certas vezes a diretora encontrava comigo. E nem me lembro o que ela perguntava. Eu havia acabado de chegar estava cansado e minha memória não gravou essa parte. Lembro-me que era sobre eu estar verde. Pois no começo eu ficava verde, só depois que meu organismo se acostumou com a “correria” que eu ficava só vermelho, mesmo, ao chegar à escola.  Eu dizia para ela a verdade… Que eu tinha vindo correndo de bicicleta. E ela me perguntou por que eu não vinha de ônibus, como os outros. Eu disse que não dava tempo. E ficou nisso mesmo. Fui pra minha sala, estudar.

Mais tarde, na hora do intervalo eu estava comendo minha rosca doce, toda coberta de açúcar e tomando meu copo de leite achocolatado, que o município fornecia… Essa também é uma parte muito legal da escola. Ainda mais, por que eu tinha colegas que não tomavam leite, e outros que não comiam rosca, com o passar do tempo quando todo mundo ficou amigo agente combinava que eles iam pegar seu lanche e o que não comessem iam me dar. Eu ia de bicicleta, gastava mais energia e merecia comer mais, mas o município fornecia o lanche contado. Um para cada um. Aí agente combinava e dessa forma eu sempre comia mais. Mas voltando ao assunto: Eu estava lá comendo, quando chega a Dona Leonice e me informa que, como o ônibus corria toda a cidade e o ponto perto da minha casa era o primeiro onde ele passava, tinha como resolver “meu problema”. Ela já havia conversado com o motorista e dito para ele que a partir de hoje era para fazer o percurso contrário, de forma que o ônibus passaria no meu ponto por ultimo, consecutivamente mais tarde. Aí eu poderia vir de ônibus. Afinal de contas dentre os 110 alunos da Escola Agrícola eu era o único o qual a aula acabava meio dia e quinze, a aula do Colégio Estadual Nossa Senhora das Graças, onde todos os normais estudavam acabava às onze e meia, e ninguém teria problema em chegar ao ponto de ônibus a tempo.

Eu achei isso muito bom, e no outro dia pude ir de ônibus. Mas como eu dizia no começo desse texto, haviam 2 motivos para que eu não fosse de ônibus pra Escola agrícola. O 2º era esse: Os trotes, que ao meu ver eram exagerados, em um nível superior aos de uma faculdade de veterinária. Realmente exagerados. Ou talvez isso seja somente na minha visão que sempre fui uma pessoa tímida e de certa forma anti-social, sempre evitei o contato físico indevido. Só o aperto do ônibus já bastava. Vendo também por esse ângulo a diretora proibiu a aplicação de trote dentro da escola. Que era onde alcançava sua jurisdição. E o que aconteceu então? Os veteranos passaram a aplicar trote dentro do ônibus, durante o percurso da cidade até a escola. Tinha gente que gostava, e achava bom ser feito de palhaço pelos outros. Mas eu simplesmente parei novamente de ir de ônibus para lá. Voltei a usar minha bike.

O motorista dirigia e não podia ficar por conta de cuidar dos novatos no ônibus. Eu já vou adiantar um pouco a história e dizer que a diretora reparou que eu havia voltado a ir de bicicleta pra escola, e quando ela perguntou eu disse o porquê. E como eu já disse antes ela era uma pessoa muito justa. Acreditam que passou a ir para a escola no ônibus junto com os alunos, só para evitar que os outros passassem trotes nos novatos?

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