Aproveitando o embalo do CQC que acabei de reassistir pela internet agora, imaginem Marcelo Tas narrando este post: “Olhem só que tchuk tchuk a complexibilidade da mente dessa criança: Piêro Reis, mais novo gênio literário, com o texto entrelaçado ao da ilustríssima Kerlayne Naves, ambos meus colegas na B 02. Este garoto, que sofre voluntariamente de estadosunidofobia, vem com esse texto composto por palavras escolhidas a dedo falar sobre a civilização.Texto esse onde as partes iniciais são palavras da Kerlayne. Olha isso:”

Agora, sem brincadeira, um texto muito bom, realmente digno de atenção:

Com o transcorrer das décadas o homem aderiu um modo de vida freneticamente frígido à felicidade. Numa busca infinita pelo que vem a ser felicidade, o homem despreza os singelos aspectos vestigiosos dessa meta suprema. E assim, o homem procura uma felicidade que não é sua, inidônea à sua existência.

Projeta, idealiza, arquiteta, sonha seu bem viver não com que tens hoje. Pobre homem! Que jamais se sacia com os doces pedaços de felicidade que a natureza o serve. É obstinado e por isso deseja veemente a tão frágil felicidade do amanhã. Comprou um ideal que por tão pouco se vendia pela boca de um qualquer abnegado. E desde então se considera infeliz por que não pode sentir essa felicidade, tão intocável e lendária.

Aprendeu desde párvulo desenhar uma felicidade sem cor. Uma felicidade que não é sua. Uma felicidade que carrega a tristonha e nebulosa saga inatingível deixada por seu pai.

 Lastimável homem, já parastes para alcançar teu olhar rumo ao céu? Já terias em algum dia ouvido o cochicho dos ventos? Já terias sido afetado pela farta vitalidade ostentada pelo verde à tua volta? Já se contemplara com os quentes beijos do Sol?

Aí está a cidade, majestosa criação da humanidade! Sobre a crosta cinzenta da terra. Uma camada de destroços, apenas mais cinzenta! No entanto ainda momentos atrás, deixei prodigiosamente viva, cheia de um povo forte, com todos os seus poderosos órgãos funcionando, abarrotada de riqueza, resplandecente de erudição, na triunfal plenitude do seu orgulho, como rainha do mundo coroada de graça.

Sumindo esvaída na confusão de telhas e cinza, onde estão os seus centros comerciais servidos por inumeráveis comerciantes mercenários? E os bancos em que está revestido do ouro universal? E as bibliotecas atulhadas com o saber dos séculos? Tudo se funde em uma nevoa parda que suja a terra.

Sim, é talvez tudo uma ilusão… E a mais amarga, porque o homem pensa ter na cidade a base de toda sua grandeza e só nela tem a fonte de toda a sua miséria. E a maior ilusão! Na cidade funda a liberdade moral, a cada manhã ela lhe impõe uma necessidade, e cada necessidade o arremessa para uma dependência. Pobre e subalterno, a sua vida é um constante solicitar, adular, vergar, rastejar, aturar a rica e “superior”. A sociedade logo a envereda em tradições, preceitos, etiquetas, cerimônias, praxes, ritos, serviços mais disciplinares que os de um cárcere ou de um cartel… A sua tranqüilidade onde está? Sumida para sempre, nessa batalha desesperada pelo pão, ou pela fama, ou pelo poder, ou pelo gozo, ou pela insaciável corrente de ouro! A alegria como haverá na cidade para esses milhões de seres que tumultuam na sufocante ocupação de desejar: e que nunca fartando ao desejo, incessantemente padece de desilusão, desesperança ou derrota. Os sentimentos mais autênticos humanos logo na cidade se desumanizam.

São como luzes que o áspero vento do viver social não deixa arder com serenidade e limpidez, e aqui abala e faz tremer, brutalmente apaga e adiante abriga com desnaturada violência. As amizades nunca passam de alianças que o interesse, na hora inquieta da defesa ou na hora sôfrega do assalto, ato apressadamente como um cordel apressado, e que estalam ao menor embate da rivalidade ou do orgulho.

E o amor, na cidade? Considerar esses amplos casos da perdição, onde a nobre carne de Eva se vende, por tabela, como a de vaca! A beleza corpo intelecto. A mais pura beleza amostra-se contempla na unção da sapiência e da beleza exterior.

Mas o que a cidade mais deteriora no homem é a sua inteligência, porque ou a arregimenta dentro da banalidade ou lhe empurra para a extravagância. Nesta densa camada de idéias e fórmulas que constitui a atmosfera mental das cidades o homem o qual a respira, só pensa em todos os pensamentos já pensados, só exprime as expressões já exprimidas, ou então, para se destacar da chata rotina, inventa num gemente esforço bizarro, uma novidade discrepante, que perpassa por nós como se fossemos obrigados a escutar balela de supostos intelectuais.

Todos nós intelectualmente somos animais irracionais, trilhando o mesmo trilho se vergando a uma mesma realidade aparentemente normal.

Nesta criação tão antinatural onde o solo é de petróleo, e a fumaça tapa o céu, e as gentes vivem amuadas nos prédios como prateleiras nas lojas, e as mentiras se perduram através de fios de comunicação.

Assim o homem aparece como uma criatura anti-racional, pedante alienada, sem beleza, sem força, sem liberdade, sem riso, sem sentimento, e trazendo em si um espírito sujeito à escravidão ou imprudente: Certamente a cidade é uma ilusão.

“O homem só é superiormente feliz quando é superiormente civilizado.”

Kerlayne Naves e Piêro Reis

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