O Grande Ditador
Em uma dess
as quartas-feiras, eu, assistindo o programa do Roberto Justos: 1 contra 100 achei interessante quando apareceu uma pergunta sobre um filme de Charles Chaplin. Ela era mais ou menos assim: No filme O Grande Ditador Chaplin faz uma sátira a quais grandes líderes? E as três opções eram Hitler e Stalin; Stalin e Mussolini; Hitler e Mussolini. Mesmo eu não tendo assistido o filme deu para deduzir qual seria a resposta certa, por saber que na época da Segunda Guerra Mundial Stalin era aliado aos EUA, sendo assim esta seria uma sátira infundada.
Enfim, esta simples pergunta me criou mais uma curiosidade, pois quem nuca ouviu falar sobre o vagabundo Carlitos interpretado por Chaplin tranqüilo e brincalhão dançando na chuva? Todos já ouviram. Mas quem sabe com certeza o contexto dessa dança e em qual de seus filmes ele aparece?E é tentando responder isto que resolvi escrever este artigo, afinal de contas cinema também é cultura, e quando se trata de um gênio como Charles Chaplin assistir um de seus filmes é uma verdadeira aula.
Assisti então o filme, e aqui está meu relato sobre ele, e se você leu até aqui é claro que vai terminar de ler:
O Grande Ditador é um filme de humor como não poderia ser diferente dos filmes dirigidos por Chaplin, porém que se destaca por ser seu primeiro filme falado. É de 1940, dois anos após o início da Segunda Guerra Mundial, onde com muita descontração transmite valores humanos importantíssimos, satirizando Adolf Hitler com o personagem Adenóide Hynkel o grande ditador da Tomânia, nome fictício que representaria a Alemanha (Germânia). Além do Nazismo satiriza o Fascismo italiano com o personagem de Benzino Napoloni, ditador da Bactéria, representando Benito Mussolini e fazendo uma referência clara a Napoleão Bonaparte.
O filme dá direito até a uma guerra de comida entre os ditadores quando Hynkel não quer assinar contrato com Napoloni para a invasão de Osterlich: território livre que represente a Áustria cujo nome em alemão é Osterreich.
O humor de Chaplin é demonstrado otimamente em seus dois personagens, onde o ditador é apresentado sempre como uma pessoa megalomaníaca e alienada aos seus objetivos de conquistar o mundo, como podemos ver na sena clássica onde brinca com um globo inflável para no final estourá-lo sem querer. Tal cena inclusive foi usada na abertura da novela O Dono do Mundo de Gilberto Braga em 1991 aqui no Brasil. E sempre as piadas envolvidas ao barbeiro tem muito bom gosto demonstrando que a verdadeira felicidade está nas pequenas coisas da vida. Há inclusive um momento em que ao som da 5ª dança húngara de Brahms o barbeiro judeu executa com sutileza e inteligência uma coreografia bem elaborada enquanto faz a barba de um careca. (como no desenho do Pica-Pau)
Chaplin faz os dois personagens principais do filme: o grande ditador Hynkel e o barbeiro, que antes era cadete do exército, mas perdeu a memória e foi morar no gueto com os judeus, o qual no final do filme é tomado por engano como sendo o ditador por sua enorme semelhança e levado para a capital para fazer seu discurso da vitória, enquanto o outro é preso em seu lugar.
Tão belo é o discurso falando de direitos Humanos no contexto da Segunda Guerra Mundial. Segue:
“Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar – se possível – judeus, o gentio… negros… brancos.
Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo – não para o seu infortúnio. Por que havemos de odiar e desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover a todas as nossas necessidades.
O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma dos homens… levantou no mundo as muralhas do ódio… e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.
A aviação e o rádio aproximaram-nos muito mais. A própria natureza dessas coisas é um apelo eloqüente à bondade do homem… um apelo à fraternidade universal… à união de todos nós. Neste mesmo instante a minha voz chega a milhares de pessoas pelo mundo afora… milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas… vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes. Aos que me podem ouvir eu digo: “Não desespereis! A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia… da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há de retornar ao povo. E assim, enquanto morrem homens, a liberdade nunca perecerá.
Soldados! Não vos entregueis a esses brutais… que vos desprezam… que vos escravizam… que arregimentam as vossas vidas… que ditam os vossos atos, as vossas idéias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como gado humano e que vos utilizam como bucha de canhão! Não sois máquina! Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar… os que não se fazem amar e os inumanos!
Soldados! Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade! No décimo sétimo capítulo de São Lucas está escrito que o Reino de Deus está dentro do homem – não de um só homem ou grupo de homens, ms dos homens todos! Está em vós! Vós, o povo, tendes o poder – o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela… de faze-la uma aventura maravilhosa. Portanto – em nome da democracia – usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo… um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice.
É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas, só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores liberam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós. Soldados, em nome da democracia, unamo-nos! (segue o estrondoso aplauso da multidão).
Então, dirige-se a Hannah :
Hannah, estás me ouvindo? Onde te encontrares, levanta os olhos! Vês, Hannah? O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo da treva para a luz! Vamos entrando num mundo novo – um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergue os olhos, Hannah! A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos!.”
Bom, não é só isso, existem muitos outros detalhes interessantes no filme, mas para você rir e se divertir de verdade, só assistindo. Não se esqueça de voltar aqui para comentar o que achou. E se já assistiu comente agora mesmo…
