Texto muito bom que eu li na Apresentação do livro de Pedro Simon

Há um pensamento, atribuído ao filósofo grego Epicuro, que diz, mais ou menos, o seguinte: “Os grandes navegadores devem sua reputação aos temporais e às tempestades”. Pois bem, neste momento da nossa história, em termos dos melhores valores, estamos vivendo grandes tormentas. E, em se tratando das melhores referências, faltam-nos os mais hábeis condutores para enfrentá-las. O pensamento do filósofo não deixa de ser, entretanto, um sinal de esperança: é exatamente, nessa situação, que se definem os melhores caminhos, e que se Em que mundo nós estamos?evidenciam os grandes timoneiros.

Temporal e tempestade, segundo os melhores dicionários, são sinônimos. Mas, quem sabe para bem explicar nossa situação atual, cada uma dessas expressões possa corresponder às duas questões que mais nos afligem nessa nossa travessia atual: a barbárie e a corrupção. Para mim, igualmente, com fortes correlações. Se, antes, ambas faziam parte do mesmo caderno de notícias, hoje são manchetes principais, de primeira página.

De repente, parece que nossos mais importantes valores tornaram-se letras mortas. Atiradas por uma janela qualquer, sem álibis convincentes. A vida foi banalizada, e ela se submete a balas perdidas, de nada vale se do gatilho de quem pouco se importa em matar, ou de quem deveria, ao contrário, proteger. Das mãos do bandido, do soldado, da madrasta, do pai. Daí, a comoção.

Eu tenho refletido muito sobre tormentas e timoneiros. De repente, quando me deparo com fatos como o do menino arrastado pelas ruas, por mãos que não hesitam em matar, ou com suspeitas de que a menina foi atirada pela janela, por quem, ao contrário, abre mão de amparar, tenho a sensação de que o barco da nossa existência, enquanto seres verdadeiramente humanos, embora a mais avançada tecnologia, está à deriva. Daí, a indignação.

O homem se perdeu na imensidão de um mar de desdém, de omissão, de falta de compaixão e de solidariedade. Mas do que isso, muitos dos timoneiros lançaram suas embarcações num mar de lama. Daí, a frustração.

Eu não vejo diferença substancial no ato de quem puxa o gatilho, ou acende o rastilho, e daquele que rouba o dinheiro sagrado, que falta na fila dos hospitais. É a mesma a dor. São as mesmas as lágrimas de morte.

A televisão, que nos mostra, através de satélites de última geração, as nossas tormentas, é a mesma que substituiu a família, a escola e a igreja, na formação dos nossos timoneiros. O círculo de discussão transformou-se num semicírculo do silêncio, o que nos impossibilita, até, de voltar ao ponto de origem.

Mas se nos faltar forças para domar as tormentas, estou certo de que ainda há esperança de formar os melhores timoneiros. A comoção, a indignação e a frustração trouxeram de volta o debate sobre valores e referências, que pareciam varridos pelos ventos da modernidade.

Alimentemos o debate sobre os principais empecilhos que nos dificultam levantar âncoras, embora a natureza nos indique sinais evidentes de bonança. As tormentas continuarão, se não mudarem os timoneiros. É por isso que os rumos da travessia deveram ser orientados pelos jovens dos nossos tempos, eles sim, os novos navegadores. Ninguém melhor que eles, e sua energia, para enfrentar a tempestade da barbárie e o temporal da corrupção.

Como estamos, todos, nesse mesmo barco, de nada adiantará se estas reflexões não forem lançadas ao vento. Se dormitarem nas prateleiras frias do nosso esquecimento. Se a nossa comoção e a nossa indignação durarem, apenas, o tempo da tormenta. Como se ela passasse, e nunca mais voltasse. Não é o que acontece, como já sentimos na barbárie que se renova e na corrupção que se repete. A frustração repetida carrega, em si, o perigo da deriva. Espero, portanto, que estas idéias contribuam no sentido de que possamos chegar, juntos, a um porto seguro.

Senador Pedro Simon

Related Posts with Thumbnails