Cidade natal de José Cândido de Carvalho, autor de 'O Coronel e o Lobisomem', o município é um polo cultural que preserva a linguagem e os costumes do interior fluminense na literatura regionalista.
Entre o Solar e a Senzala: A Resistência Literária de Campos dos Goytacazes
Campos dos Goytacazes, no Norte Fluminense, é uma cidade de contrastes férteis. Conhecida nacionalmente pela força do agronegócio e pelo título de "Capital Brasileira do Petróleo", sua veia artística muitas vezes pulsa à margem do holofote. No entanto, ao descer a serra e adentrar a Planície Goytacá, o que se encontra é uma cena literária profunda, enraizada em uma tradição intelectual robusta e revitalizada por uma nova geração de autores independentes que se recusam a deixar a palavra morrer.
Se a memória oficial da cidade está gravada nos casarões do Centro Histórico, a literatura viva de Campos está nos cafés da Bienal do Livro, nos foyers da Câmara Municipal e, principalmente, na coragem de pequenos editores e escritores que publicam sem a chancela do eixo Rio-São Paulo.
1. Raízes e Tradição: O Pilar Intelectual de Alberto Lamego
Para entender a literatura campista, é impossível ignorar o colossal legado de Alberto Ribeiro Lamego (1896-1985) . Engenheiro, geólogo, jornalista e historiador, Lamego foi o grande intérprete da formação cultural da região. Sua obra-prima, "A Planície do Solar e da Senzala", é muito mais do que um registro histórico; é um mergulho na alma da cidade .
Lamego foi um "escritor multimídia" antes do termo existir, transitando entre o jornalismo literário e a folkcomunicação para descrever a geografia humana da Baixada. Ele resgatou do esquecimento figuras como os "muxuangos" e "mocorongos" e enalteceu a cultura popular do açúcar, sendo comparado por alguns críticos a Euclides da Cunha pela capacidade de unir ciência e prosa poética . Essa tradição de um olhar atento para as contradições sociais—o luxo do solar e a dor da senzala—é a espinha dorsal sobre a qual se assenta a produção literária local contemporânea.
2. A Cena Contemporânea: O Protagonismo da Bienal e a Pulverização dos Gêneros
O grande termômetro da vitalidade literária de Campos é a Bienal do Livro, realizada pela Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL). Mais do que um evento de vendas, a Bienal se consolidou como uma plataforma democrática de lançamento para autores locais. Diferente de outras feiras onde o pequeno escritor é excluído, em Campos a Prefeitura instituiu um chamamento público para garantir que a cena independente tenha voz .
A edição de 2022, por exemplo, revelou um mosaico impressionante de diversidade temática. Em um único final de semana, desfilaram pelo "Café Literário" nomes como Mariele Troiano (ciência política com "Mosaico da Burocracia Política Brasileira"), Carlos Minguta (ficção com "O último trem vai partir"), e a pesquisadora Gisele Maria Almeida (sociologia com "Au revoir, Brésil") .
A cena contemporânea é marcada por coletivos difusos, mas altamente ativos. Escritores como Wesley B. Machado (que transita entre a crônica esportiva e a literatura infantil) e Sara Rifer (autora de "O último Goytacá") são exemplos de versatilidade, aparecendo tanto na Bienal quanto em eventos independentes promovidos pela Câmara Municipal, como a "Tarde de Autógrafos" no Palácio Nilo Peçanha .
Há também um movimento silencioso, porém crucial, de editoras e suportes acadêmicos. A Essentia Editora IFFluminense, vinculada ao Instituto Federal Fluminense, mantém viva a publicação científica e literária através da revista Vértices, garantindo que a produção intelectual local tenha registro e circulação acadêmica de qualidade . Embora tradicionais como a Editora Moderna e a FTD tenham representação na cidade, o grande feito de Campos é o fomento ao autor independente, que muitas vezes recorre a gráficas locais para tirar seus livros do papel .
3. Temáticas e Obras: A Pluralidade da Planície
O que mais impressiona na nova geração de escritores campistas é a recusa a um tema único. Ao contrário de cenas literárias focadas em um gênero específico (como o romance histórico ou a poesia marginal), Campos produz de tudo um pouco, sempre com um olho no local e outro no universal.
A Literatura de Autoajuda e Fé
Há uma forte veia de literatura de edificação pessoal e religiosa. Rebeca Samuel, por exemplo, lançou "Salvos Pelo Graça" e "O Rugido Leão", dialogando com um público que busca na literatura uma ferramenta de fortalecimento espiritual . Thaís Souza também se destaca nesse segmento, com títulos como "Superando os Limites" e "Não há Limites para o Amor", abordando a resiliência humana de forma didática e acessível .
A Memória Feminina e o Protagonismo Social
O resgate histórico sob a ótica feminina ganha força com Ana Souza e sua obra "Aventuras Femininas na Planície Goytacá", um esforço de tirar do anonimato as mulheres que construíram a região . Sol Figueiredo também contribui com essa vertente através da série "Mulheres Campistas", um registro biográfico e literário essencial para a memória local .
Ficção, Crônica e Poesia
A ficção contemporânea aparece com Sergio Arruda ("Um cão late na noite"), mergulhando no suspense psicológico, enquanto Sylvia Paes, com "Oculta exuberância: Cemitérios como museus", prova que a literatura pode transformar o luto e a história em arte . A poesia e a crônica sensível estão presentes em Kele Viana ("Fagulhas de mim") e na obra infantil de Edda, que encanta com "O Natal da Vovó Catarina" .
Conclusão: Uma Cena a Ser Descoberta
A cena literária de Campos dos Goytacazes é um organismo vivo e democrático. Apoiada por uma política pública que insere o autor independente na Bienal e impulsionada pela coragem de escritores que bancam suas próprias publicações, a cidade prova que literatura não se faz apenas com grandes contratos editoriais.
Nomes como Elias Gonçalves (autor do político "Vereador 5 Estrelas"), Cristiele Lemos ("Você não pode perder a Guerra") e Cristiano Peixoto Maciel ("Educação Ambiental") mostram que o campo literário local é tão vasto e cheio de contradições quanto a própria Planície Goytacá . Para o leitor que busca vozes autênticas, distantes dos modismos editoriais do centro do país, Campos dos Goytacazes oferece um baú de tesouros esperando para ser aberto.
Fontes Pesquisadas:
Prefeitura de Campos dos Goytacazes (FCJOL), Câmara Municipal de Campos dos Goytacazes, Portal Solutudo, Guia Telefone, Revista Multidisciplinar da Uniflu, Diadorim/IBICT e Consultas Plus.
Cidade natal de José Cândido de Carvalho, autor de 'O Coronel e o Lobisomem', o município é um polo cultural que preserva a linguagem e os costumes do interior fluminense na literatura regionalista.
Entre o Solar e a Senzala: A Resistência Literária de Campos dos Goytacazes
Campos dos Goytacazes, no Norte Fluminense, é uma cidade de contrastes férteis. Conhecida nacionalmente pela força do agronegócio e pelo título de "Capital Brasileira do Petróleo", sua veia artística muitas vezes pulsa à margem do holofote. No entanto, ao descer a serra e adentrar a Planície Goytacá, o que se encontra é uma cena literária profunda, enraizada em uma tradição intelectual robusta e revitalizada por uma nova geração de autores independentes que se recusam a deixar a palavra morrer.
Se a memória oficial da cidade está gravada nos casarões do Centro Histórico, a literatura viva de Campos está nos cafés da Bienal do Livro, nos foyers da Câmara Municipal e, principalmente, na coragem de pequenos editores e escritores que publicam sem a chancela do eixo Rio-São Paulo.
1. Raízes e Tradição: O Pilar Intelectual de Alberto Lamego
Para entender a literatura campista, é impossível ignorar o colossal legado de Alberto Ribeiro Lamego (1896-1985) . Engenheiro, geólogo, jornalista e historiador, Lamego foi o grande intérprete da formação cultural da região. Sua obra-prima, "A Planície do Solar e da Senzala", é muito mais do que um registro histórico; é um mergulho na alma da cidade .
Lamego foi um "escritor multimídia" antes do termo existir, transitando entre o jornalismo literário e a folkcomunicação para descrever a geografia humana da Baixada. Ele resgatou do esquecimento figuras como os "muxuangos" e "mocorongos" e enalteceu a cultura popular do açúcar, sendo comparado por alguns críticos a Euclides da Cunha pela capacidade de unir ciência e prosa poética . Essa tradição de um olhar atento para as contradições sociais—o luxo do solar e a dor da senzala—é a espinha dorsal sobre a qual se assenta a produção literária local contemporânea.
2. A Cena Contemporânea: O Protagonismo da Bienal e a Pulverização dos Gêneros
O grande termômetro da vitalidade literária de Campos é a Bienal do Livro, realizada pela Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima (FCJOL). Mais do que um evento de vendas, a Bienal se consolidou como uma plataforma democrática de lançamento para autores locais. Diferente de outras feiras onde o pequeno escritor é excluído, em Campos a Prefeitura instituiu um chamamento público para garantir que a cena independente tenha voz .
A edição de 2022, por exemplo, revelou um mosaico impressionante de diversidade temática. Em um único final de semana, desfilaram pelo "Café Literário" nomes como Mariele Troiano (ciência política com "Mosaico da Burocracia Política Brasileira"), Carlos Minguta (ficção com "O último trem vai partir"), e a pesquisadora Gisele Maria Almeida (sociologia com "Au revoir, Brésil") .
A cena contemporânea é marcada por coletivos difusos, mas altamente ativos. Escritores como Wesley B. Machado (que transita entre a crônica esportiva e a literatura infantil) e Sara Rifer (autora de "O último Goytacá") são exemplos de versatilidade, aparecendo tanto na Bienal quanto em eventos independentes promovidos pela Câmara Municipal, como a "Tarde de Autógrafos" no Palácio Nilo Peçanha .
Há também um movimento silencioso, porém crucial, de editoras e suportes acadêmicos. A Essentia Editora IFFluminense, vinculada ao Instituto Federal Fluminense, mantém viva a publicação científica e literária através da revista Vértices, garantindo que a produção intelectual local tenha registro e circulação acadêmica de qualidade . Embora tradicionais como a Editora Moderna e a FTD tenham representação na cidade, o grande feito de Campos é o fomento ao autor independente, que muitas vezes recorre a gráficas locais para tirar seus livros do papel .
3. Temáticas e Obras: A Pluralidade da Planície
O que mais impressiona na nova geração de escritores campistas é a recusa a um tema único. Ao contrário de cenas literárias focadas em um gênero específico (como o romance histórico ou a poesia marginal), Campos produz de tudo um pouco, sempre com um olho no local e outro no universal.
A Literatura de Autoajuda e Fé
Há uma forte veia de literatura de edificação pessoal e religiosa. Rebeca Samuel, por exemplo, lançou "Salvos Pelo Graça" e "O Rugido Leão", dialogando com um público que busca na literatura uma ferramenta de fortalecimento espiritual . Thaís Souza também se destaca nesse segmento, com títulos como "Superando os Limites" e "Não há Limites para o Amor", abordando a resiliência humana de forma didática e acessível .
A Memória Feminina e o Protagonismo Social
O resgate histórico sob a ótica feminina ganha força com Ana Souza e sua obra "Aventuras Femininas na Planície Goytacá", um esforço de tirar do anonimato as mulheres que construíram a região . Sol Figueiredo também contribui com essa vertente através da série "Mulheres Campistas", um registro biográfico e literário essencial para a memória local .
Ficção, Crônica e Poesia
A ficção contemporânea aparece com Sergio Arruda ("Um cão late na noite"), mergulhando no suspense psicológico, enquanto Sylvia Paes, com "Oculta exuberância: Cemitérios como museus", prova que a literatura pode transformar o luto e a história em arte . A poesia e a crônica sensível estão presentes em Kele Viana ("Fagulhas de mim") e na obra infantil de Edda, que encanta com "O Natal da Vovó Catarina" .
Conclusão: Uma Cena a Ser Descoberta
A cena literária de Campos dos Goytacazes é um organismo vivo e democrático. Apoiada por uma política pública que insere o autor independente na Bienal e impulsionada pela coragem de escritores que bancam suas próprias publicações, a cidade prova que literatura não se faz apenas com grandes contratos editoriais.
Nomes como Elias Gonçalves (autor do político "Vereador 5 Estrelas"), Cristiele Lemos ("Você não pode perder a Guerra") e Cristiano Peixoto Maciel ("Educação Ambiental") mostram que o campo literário local é tão vasto e cheio de contradições quanto a própria Planície Goytacá . Para o leitor que busca vozes autênticas, distantes dos modismos editoriais do centro do país, Campos dos Goytacazes oferece um baú de tesouros esperando para ser aberto.
Fontes Pesquisadas:
Prefeitura de Campos dos Goytacazes (FCJOL), Câmara Municipal de Campos dos Goytacazes, Portal Solutudo, Guia Telefone, Revista Multidisciplinar da Uniflu, Diadorim/IBICT e Consultas Plus.



