Este município do Estado de Roraima, na fronteira com a Venezuela, é palco de uma literatura que explora o hibridismo cultural e os desafios da vida nos limites da nação, servindo de ponto de observação para relatos geopolíticos e sociais.
O sopro da serra: a cena literária invisível de Pacaraima
Pacaraima, a cidade mais setentrional do Brasil, aninhada aos pés da Serra que leva seu nome e na divisa com a Venezuela, é conhecida nacionalmente como a “porta de entrada da Amazônia” e palco de uma intensa dinâmica de imigração. No entanto, para além do noticiário político e econômico, existe uma outra fronteira sendo explorada por seus poucos, mas potentes, habitantes: a fronteira da palavra.
Nesta reportagem, embarquei em uma jornada documental para tentar mapear o que não está nas prateleiras das grandes livrarias. O que se lê e o que se escreve na extremidade norte do país? A conclusão, surpreendentemente rica, revela que a literatura local pulsa onde menos se espera: na tradição oral indígena transmutada em arte, em editoras cartoneras que desafiam a geografia e na produção acadêmica que olha para a própria fronteira.
Raízes e Tradição: O Mito como Matéria-Prima
Antes de falarmos de livros impressos, é preciso entender que a literatura de Pacaraima — ou melhor, da região do “Circum-Roraima” — nasce do verbo. Durante séculos, os povos Macuxi, Wapichana, Ingarikó, Taurepang e Patamona, habitantes milenares da região, narraram a criação do mundo, a chegada dos ancestrais e os mistérios da fauna e flora através da oralidade.
Para a pesquisadora Lúcia Sá, autora do estudo seminal Rain Forest Literatures: Amazonian Texts and Latin American Culture, a serra de Pacaraima é um marco literário. Em sua obra, ela dedica o capítulo inaugural, “Pacaraima Texts”, à análise dessas tradições textuais indígenas, argumentando que elas não são meras fontes de estudo antropológico, mas sim literatura em sua forma mais pura . Esses textos estabelecem a base de uma estética que influenciaria, décadas depois, clássicos modernistas como Macunaíma, de Mário de Andrade .
A figura central dessa tradição ancestral é a Wei (o sol, ou a palavra de poder), e a literatura local ainda respira esse mito fundador.
A Cena Contemporânea: A Resistência do Papel e da Voz
Se o mercado editorial tradicional insiste em ignorar a região, Pacaraima e seu entorno (especialmente a capital Boa Vista, que funciona como centro irradiador) responderam com criatividade e artesanato. A cena contemporânea é definida pela produção independente, pela coragem de existir e, recentemente, pela projeção nacional de suas vozes indígenas.
A Editora que Faz Sol: Wei Editora
Um dos marcos mais importantes ocorreu em 2019, quando a poeta e professora indígena Sony Ferseck (povo Macuxi), junto com Devair Fiorotti, fundou a Wei Editora, a primeira casa editorial independente do estado de Roraima . O nome não é à toa: "Wei" significa "sol" na língua Macuxi, e a missão da editora é iluminar narrativas que historicamente ficaram no escuro.
Sony é hoje uma das vozes mais importantes da nova literatura brasileira. Seu livro Weiyamî: mulheres que fazem sol (2022) foi semifinalista do Prêmio Jabuti e é um exemplo perfeito da estética local: um texto que nasce da oralidade, transcende a escrita e ressignifica o papel da mulher indígena .
“Dizer para um ancião indígena que está lá no interior de Roraima ‘o senhor pode fazer um livro’ é muito potente. [...] A gente percebeu como o mercado editorial ainda não chegou nessa região do país” — Sony Ferseck, em entrevista à Agência Brasil durante a Flip 2025 .
A Poesia Cartonera: Maricota e a Estética da Reutilização
Enquanto a Wei Editora profissionaliza o impresso, o selo Maricota Cartonera representa a veia mais artesanal e anárquica da cena. Idealizado pela poeta Zanny Adairalba em 2016, é a primeira editora cartonera de Roraima.
A técnica é bela e sustentável: capas feitas de caixas de papelão reutilizadas, pintadas à mão e costuradas. Cada exemplar é único. O lançamento de estreia foi o livro de poemas Carrossel Agalopado (2016), da própria Zanny, seguido pela antologia Palavradeiros, que reuniu vozes da periferia literária local . Este movimento mostra que, diante da falta de gráficas no estado (Sony Ferseck lamenta que existam apenas duas em todo o estado ), o artista local transforma a escassez em identidade estética.
Saraus e Coletivos: A Voz ao Pé da Serra
Embora as buscas específicas por coletivos ativos hoje em Pacaraima sejam escassas nos grandes mecanismos de busca (o que denota a força da comunicação boca a boca e das redes sociais fechadas), a região de Roraima sempre foi movida por saraus.
Nomes como Ágda Santos (cronista), Marcelo Perez (poeta e diretor teatral, autor de Ainda se estivesse faltando pedaços) e Rodrigo Mebs movimentavam a cena na última década, e a expectativa é que esses microeventos tenham migrado para os espaços digitais ou para encontros presenciais nas comunidades indígenas e periurbanas . A produção de fanzines, como a do Coletivo Ecoecoa (com a trilogia Sem Início Sem Fim), também demonstra a pulsão do formato "faça você mesmo" na região .
Temáticas e Obras: O que se Escreve na Fronteira
A literatura de Pacaraima e arredores é intrinsecamente política, geográfica e espiritual.
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Cosmologias Indígenas e Decolonialidade: Este é o gênero mais forte no momento. Autores como Sony Ferseck não escrevem sobre os índios; eles escrevem como índios, subvertendo a lógica da literatura antropológica. Obras como Weiyamî tratam da força feminina, da ancestralidade e da resistência cultural em um mundo em crise.
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A Poesia do Isolamento: Autores como Zanny Adairalba (Carrossel Agalopado) e Neto Freitas (Poemas sociais, regionais e banais; Resistirmos) abordam o cotidiano de quem vive no extremo. Neto Freitas, em particular, chama a atenção por ter produzido seus livros de forma totalmente artesanal, unindo a forma (o objeto) ao conteúdo (a poesia de protesto e afeto) .
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A Fronteira como Personagem: Embora não seja um livro literário propriamente dito, o Boletim de Conjuntura da Universidade Federal de Roraima (UFRR), editado por Elói Martins Senhoras, exemplifica o rigor intelectual que cerca a região, analisando a complexa realidade sócio-política que inevitavelmente alimenta a prosa e a poesia local .
Conclusão: Um Grito que Ecoa da Serra
Mapear a literatura de Pacaraima exige que o pesquisador mude seu foco dos grandes centros para as margens. Não há ainda um “clube da esquina” em Pacaraima, mas há algo talvez mais forte: a consciência de que a literatura, ali, é um ato de sobrevivência e afirmação.
A produção é dominada por vozes femininas indígenas e por poetas independentes que fazem do papelão e da impressão sob demanda suas armas. A cena contemporânea, embora carente de editais e incentivo governamental massivo, está viva na internet, nas palestras acadêmicas de Sony Ferseck e nas costuras manuais da Maricota Cartonera.
Pacaraima nos ensina que, às vezes, é preciso subir a serra para escutar o que há de mais original na literatura brasileira: o sopro ancestral da palavra falada e a luta para transformá-la em letra.
Referências Bibliográficas
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SÁ, Lúcia. Rain Forest Literatures: Amazonian Texts and Latin American Culture. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2004.
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BOEHM, Camila. Vozes indígenas ganham projeção na Festa Literária de Paraty. Agência Brasil, 01 ago. 2025.
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Rondoniaovivo.com. Palestra: Doutora Sony Ferseckstra abordará literaturas indígenas do circum-Roraima. 16 maio 2024.
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BORGES, Edgar. Coluna Rede Literária. Cultura de Roraima & afins, 2013-2015.
⚠️ Pesquisas elaboradas com auxílio do Deep Research estão sujeitos a ambiguidade referencial.
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👥 Pesquisa por Guilherme Felipe, Curadoria Silvio Lobo



