Este município do Estado de Rondônia destaca-se pela força de sua cultura cafeeira e indígena, servindo de fonte para contos e poesias que buscam equilibrar a preservação das raízes tradicionais com o progresso econômico e social do interior rondoniense.
Esta é uma investigação fascinante. Como pesquisador e jornalista, preciso começar com uma confissão: a cena literária de Cacoal, Rondônia, não se anuncia em holofotes ou grandes premiações nacionais. Ela respira no formato corajoso da autopublicação, na memória afetiva dos pioneiros e na pulsação dos saraus que resistem fora do eixo Rio-São Paulo.
Abaixo, apresento o panorama completo que consegui reunir sobre a produção literária na capital do café rondoniense.
As Letras da BR-364: Um Retrato da Resistência Literária em Cacoal (RO)
1. Raízes e Tradição: A Escrita como Testemunho
A história literária de Cacoal está intrinsecamente ligada à sua própria ocupação. Diferente das tradicionais academias do Nordeste ou das vanguardas do Sul, aqui a literatura nasce do testemunho. A cidade, estabelecida oficialmente em 1975, teve sua alma capturada por aqueles que desbravaram a terra.
A figura que melhor representa esta fase é Setembrino Ragnini. Chegando ao município ainda no ano de fundação, Ragnini personifica o "escritor-pioneiro". Aos 88 anos, ele lançou "Memórias do meu viver" (2015), uma obra que foge do academicismo para abraçar a crônica da vida cotidiana e das histórias "engraçadas e verídicas" da formação da cidade . Este movimento de eternizar a saga familiar através da palavra é a semente mais pura da tradição literária local.
Outro nome que emerge dessas raízes é Edson Bento da Silva. Embora tenha trânsito entre várias cidades, foi em Cacoal, na Escola Estadual Carlos Gomes, que se formou tecnicamente. Iniciando sua escrita tardiamente, durante a pandemia, Edson representa o poeta apaixonado pela natureza e pela memória, tendo participado de antologias nacionais e mantendo viva a chama da poesia classica na região .
2. A Cena Contemporânea: O Protagonismo Independente
Se a primeira geração escreveu para registrar a posse da terra, a nova geração escreve para registrar a posse da alma e das emoções. A cena contemporânea de Cacoal é, acima de tudo, independente. Faltam grandes editoras locais, mas sobra criatividade e uso de plataformas digitais.
O Fenômeno da Autopublicação: Mayhara Paixão
O maior expoente vivo e ativo da nova literatura cacoalense é Mayhara Paixão. Jovem, cristã, mas com uma abordagem literária secular, Mayhara descobriu na plataforma UICLAP a ferramenta para escoar sua produção febril. Diferente dos poetas solenes do passado, Mayhara dialoga com o romance contemporâneo de massa.
Com títulos como Aimée Amada, Investigando o Amor e os distópicos Depois do Apocalipse, sua obra transita entre a urgência emocional e o entretenimento . O que chama a atenção não é apenas a quantidade (cinco livros solo), mas a virada colaborativa recente. Em um movimento raro e belo, Mayhara coautorou com seu pai, Moiseis Oliveira da Paixão, o livro de poesias "Coração Magoado e Outras Histórias". Este gesto simboliza a passagem do bastão: da memória oral do pai para a tecnologia de publicação da filha .
Pequenos Editoras e Coletivos: O Caso Calamari
Se a UICLAP resolve a questão da produção, os coletivos resolvem a questão do pertencimento. A cidade respira através do projeto Calamari, responsável pelo "Sarau do Círculo". Este não é um evento de calendário festivo; é uma instituição de contracultura.
Com mais de 90 edições realizadas (até 2024), o Sarau do Círculo vai além da simples declamação de poesia. Ele funciona como um laboratório de cidadania cultural, onde a disposição em círculo elimina hierarquias. É o espaço onde o poeta anônimo, o MC, o grafiteiro e o idoso que carrega memórias se encontram. A curadoria do projeto tem a inteligência de conectar Cacoal ao mundo através do quadro "Poetas pelo Mundo", trazendo vozes de Lisboa à Califórnia para dialogar com a periferia rondoniense .
O Espaço Institucional
A cena também se fortalece via educação. O SESI de Cacoal mostrou-se um agente ativo, promovendo eventos como o "Sarau Literário Café com Poesia". Sob coordenação de professores como Alkyones Santana e Claudia Nepomuceno, a escola tira Machado de Assis do papel e o coloca no palco, formando novas plateias e, potencialmente, novos autores .
3. Temáticas e Obras: A Alma de Cacoal em Páginas
Analisando a produção local, é possível perceber padrões claros que definem o "estilo Cacoal":
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Romance Contemporâneo e Ficção Emocional: Liderado por Mayhara Paixão, os temas giram em torno de relacionamentos afetivos, "amor sem restrições", perdas e recomeços. É uma literatura de alto apelo emocional e de fácil acesso, pensada para o leitor digital .
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Poesia de Quintal e Existencial: Enquanto o Sarau do Círculo puxa uma poesia mais crua e performática, autores como Edson Bento mantêm a chama da poesia mais tradicional e observadora da natureza .
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Memória e Documento: Obra como a de Setembrino Ragnini mantêm vivo o gênero da memória. Estes livros funcionam como arquivos históricos não-oficiais, detalhando a vida dos pioneiros, as dificuldades da estrada e a construção da cidade a partir do zero .
Conclusão
A literatura de Cacoal não está nas vitrines das livrarias nacionais, mas está viva. Ela pulsa na autogestão de Mayhara Paixão, que domina o processo editorial do início ao fim; ela ecoa no círculo do Calamari, que resiste como espaço de fala e escuta; e ela se perpetua na memória de seus pioneiros. É uma cena pequena, mas de uma resiliência que merecia ser contada em prosa e verso.
Referências
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G1 RO. Pioneiro de Cacoal lançará livro sobre os 40 anos vividos no município. 2015.
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Tribuna Popular. Mayhara Paixão se destaca na literatura contemporânea com obras publicadas pela UICLAP.
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FIERO. SESI de Cacoal promove Sarau Literário para os alunos do Ensino Médio. 2024.
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Família Literária. Perfil de Edson Bento.
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Calamari. Sarau do Círculo.
⚠️ Pesquisas elaboradas com auxílio do Deep Research estão sujeitos a ambiguidade referencial.
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