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Cametá
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Este município do Estado do Pará é terra de tradição intelectual e resistência, cujas narrativas históricas sobre a Cabanagem e a cultura do samba de cacete alimentam a produção literária local.

As letras que brotam do Tocantins: a cena literária de Cametá entre o cordel e o romance contemporâneo

Introdução

Cametá, a "Rainha do Tocantins", carrega em seu nome uma herança indígena que significa "lugar afastado" ou "pouso de animais" — mas a literatura que ali floresce está longe de ser um território isolado. Às margens do rio que dá nome à região, esta cidade de mais de 130 mil habitantes construiu, ao longo dos séculos, uma tradição intelectual que poucos municípios do interior paraense podem ostentar.

Da poesia ribeirinha de João Batista Pantoja à prosa premiada de Salomão Larêdo, passando pelo cordel combativo de Arodinei Gaia e pelo romance LGBTQIA+ de Genisson Paes, Cametá se revela como um dos mais vibrantes polos literários do Baixo Tocantins. Este artigo é um mergulho nesse universo — das raízes fincadas na Vila do Carmo às vozes contemporâneas que, entre saraus, editoras independentes e feiras literárias, mantêm viva a palavra cametaense.

1. Raízes e Tradição: A Vila do Carmo como Berço Intelectual

A história literária de Cametá está indissociavelmente ligada à sua geografia. A cidade, que começou como missão jesuíta no século XVII, desenvolveu uma vocação intelectual precoce, alimentada pela presença de escolas religiosas e pelo fluxo de mercadorias e ideias que subiam e desciam o Tocantins.

A "Vila do Carmo" — distrito cametaense que deu origem a expressões como "cametaense, sumano" — é o berço afetivo e literal de muitos desses escritores . É dessa paisagem ribeirinha, marcada pela cheia e pela vazante do rio, que emerge uma literatura profundamente ancorada no cotidiano das águas, na religiosidade popular e na crítica social.

As Figuras Célebres: Os Nomes que Abriram Caminho

Salomão Larêdo é, sem dúvida, o nome de maior projeção nacional entre os escritores cametaenses. Natural da Vila do Carmo, Larêdo é advogado, jornalista e mestre em Teoria Literária pela UFPA — uma formação que combina o rigor acadêmico com a sensibilidade do escritor .

Sua trajetória é marcada por uma atuação incansável na promoção da literatura paraense: fundou a Associação Paraense de Escritores e a União dos Escritores da Amazônia, criou o projeto "Jirau da Literatura" e idealizou a FLiPA — Feira Literária do Pará, que ocorre anualmente em Belém com o objetivo de valorizar o autor local . Em 2019, alcançou um feito raro para um escritor amazônida: foi o único paraense incluído no Dictionary of Literary Biography Style Manual, publicação da editora norte-americana Bruccoli Clark Layman Book .

Sua obra mais recente, "Baixo-Tocantins - Na vida de sua gente" (2023), é um marco. Com mais de mil páginas, o livro resulta de uma pesquisa iniciada em 2013, percorrendo os municípios de Baião, Igarapé-Miri, Limoeiro do Ajuru, Cametá, Oeiras do Pará, Mocajuba e Tucuruí, entre outros. A obra reúne mapas, histórias orais e entrevistas que reconstroem a memória social da região . O lançamento ocorreu na UFPA de Cametá, em junho de 2023, e contou com a presença do presidente da Imprensa Oficial do Estado, Jorge Panzera, que destacou a importância de "levar para nossa população, em especial para o interior do estado, autores e obras de fundamental importância para compreender a história do Pará" .

Entre seus outros títulos, destaca-se "Olho de Boto" , romance que mergulha no imaginário amazônico e se tornou um de seus livros mais populares .

João Batista Pantoja Pereira representa outra vertente fundamental da tradição literária cametaense: a poesia enraizada na vida ribeirinha. Nascido na localidade de Cuxipiarí-Carmo, Batista é presidente da Academia Cametaense de Letras — instituição que mantém viva a chama literária na cidade .

Sua obra "Aturiá" é uma coletânea de poemas que enaltece Cametá, abordando temas como amor, família, religião e natureza. Em versos como "Fica muito mais formosa / Quando o Tocantins / Está caudaloso / A te contemplar", o autor transforma a geografia local em matéria-prima lírica . Mas sua poesia não é apenas contemplativa: também exerce crítica social contundente, como no poema sobre o cenário político local, em que denuncia o clientelismo e o favoritismo que marcam a relação entre políticos e ribeirinhos: "Embora seja meio do ano / Ninguém mais está contratando, / Mas sei o que vocês estão passando, / Vou contratá-lo e, em mim, continue votando" .

Batista também incursionou pelo cordel, com obras que retratam o cotidiano do homem do rio com humor e acidez. Seu trabalho é um elo entre a tradição oral e a literatura impressa, entre a feira e a academia.

2. A Cena Contemporânea: Cordel, Romance e a Força da Independência

A pesquisa revela que Cametá possui uma das cenas literárias mais dinâmicas e diversificadas do interior paraense. Longe de depender de grandes estruturas editoriais, a produção local floresce em editoras independentesacademias de letras e feiras literárias — e ganha asas quando seus autores conquistam prêmios nacionais.

Arodinei Gaia: O Cordelista Historiador

Arodinei Gaia (também conhecido como Dinei Gaia) é, talvez, o nome mais prolífico da nova geração. Nascido em Cametá em 1976, filho de ribeirinhos de Ajarapanema, Gaia teve o primeiro contato com a literatura pelos cordéis que o pai lhe presentava na infância — uma origem humilde que ele nunca esqueceu .

Sua formação é múltipla: pedagogo, historiador (licenciado e bacharel pela UFPA), filósofo, mestre em Ciências da Educação. Essa base acadêmica se reflete em sua obra, que é marcada pelo regionalismo, pela criticidade e pela historicidade — uma combinação que ele resume como "frutos de sua formação acadêmica e da vivência interiorana" .

O catálogo de Gaia é impressionante em quantidade e diversidade. Transitando entre cordel, conto, poesia e romance, ele já publicou:

Obra Ano Gênero
Irmandade Leiga na Amazônia 2012 História acadêmica
Ratazanas na terra de Pindorama 2013 Poesia
A Fera da estrada 2014 Conto
O Mentiroso 2015 Cordel
O Canto do Jaçanã 2015 Poesia
O Velho, o garoto e a cobra grande 2016 Conto
O Mistério do quarto fechado 2016 Romance/Conto
Antologia de Poetas Cametaenses (org.) 2016 Poesia
O Negro Sinfrônio na guerra do Paraguai 2018 Cordel
Um encontro com a morte 2018 Cordel
Proezas de São Benedito 2019 Cordel
O Noivado Macabro 2019 Cordel
Defensores da Educação no Reino de Já-Temyr 2019 Cordel
SOME: Educação no Campo da Amazônia Paraense 2020 Educação
País do Avesso 2021 Cordel
A maldição da residência Barcelar 2022 Romance
A Moça do Cemitério 2023 Conto

Gaia é membro de múltiplas instituições literárias: Academia Cametaense de Letras, Academia Paraense de Literatura de Cordel (cadeira 13), Academia Paraense Literária Interiorana (APLI) e União Brasileira de Escritores . Em 2021, recebeu a Comenda Dom João VI da Federação Brasileira dos Acadêmicos de Ciências, Letras e Artes (FEBACLA) e o título de Defensor do Patrimônio Histórico e Cultural Brasileiro . Em 2024, foi agraciado pela Câmara Municipal de Cametá com a Comenda Dr. Gentil Bitencourt.

Sua atuação, no entanto, não se limita à escrita. Gaia promove ativamente a leitura em escolas, participa de saraus e é coautor, com o poeta Francisco Mendes, do projeto "Cordel na Feira" , que leva a literatura de cordel para o espaço tradicionalmente associado aos folhetos populares: as feiras livres . "É lá na escola que reúne o tripé da literatura: o escritor, o livro e o leitor", afirma.

Genisson Paes: O Romance LGBTQIA+ e a Premiação Nacional

Se Gaia representa a tradição do cordel e da crítica social, Genisson Paes é a aposta mais ousada da nova prosa cametaense. Doutorando e mestre em Agriculturas Amazônicas, Paes estreou na literatura com o romance "Jambo Rosa" , obra que venceu o Prêmio Variações de Literatura LGBTQIA+ em 2021, uma parceria da revista Variações com a editora Folheando .

O livro narra o reencontro, após anos, de dois jovens — João e Pedro — e os sentimentos que emergem entre eles, "banhados pelos ritmos e mistérios dos rios da Amazônia" . Mas a obra não se limita ao romance homoafetivo: "fala da Amazônia, dos rios, da floresta, adentrando o imaginário simbólico", explica o autor . A natureza, em sua prosa, não é apenas cenário, mas personagem ativa — uma escolha que dialoga diretamente com a tradição literária amazônica de nomes como Inglês de Sousa e Dalcídio Jurandir, a quem Paes cita como influências .

Sobre o processo de escrita, Paes confessa: "Escrever um romance é desafiador, pois tu ficas se perguntando se o texto é interessante, ou seja, se é bem construído, se tem uma boa narrativa, se alguém irá lê-lo" . O sucesso do livro, no entanto, respondeu a essas inquietações. O autor já tem dois outros romances escritos e planeja conciliar a carreira acadêmica com a produção literária.

Outras Vozes: A Antologia e a Feira Pan-Amazônica

A cena literária cametaense é plural, e muitos outros nomes merecem destaque. Em 2016, por ocasião da XX Feira Pan-Amazônica do Livro, uma exposição reuniu obras de diversos escritores locais, revelando a extensão da produção literária na cidade .

Entre os nomes e obras apresentados:

  • Altamir Sassim Dias, autor de "Raízes do Tocantins" 

  • Haroldo Barros, com múltiplos títulos: "A Fetracrom no Movimento Sindical""Fragmentos do Movimento Sindical no Pará""O Boto Sedutor""O Imaginário da República em Cametá" 

  • Admilson Freitas, autor de "Servindo a Deus na Amazônia Tocantina" 

  • Arodinaldo Gaia de Souza (Arogas), com "O teu esforço é a medida do teu limite""Casos com a Portuguesa" e "João Vitória" 

Antologia de Poetas Cametaenses (2016), organizada por Arodinei Gaia, reuniu nove poetas — Alberto Mocbel, Altamir Sassim, André Estumano, Dagoberto Barros, Francisco Mendes, João Batista, Luizão Barros, Miguelângelo Mocbel e o próprio organizador, com ilustrações de Jalva Teles — em um esforço coletivo de fixar a memória poética da cidade .

A Editora Lendoas: Uma Infraestrutura Local

Um dos achados mais significativos desta pesquisa é a Editora Lendoas, sediada em Cametá. Com "mais de uma década construindo pontes para que escritores independentes possam divulgar suas obras", a Lendoas se define como uma gráfica e editora que valoriza o "local" .

Sua missão é explícita: "Incentivando, produzindo e tornando público Literatura Brasileira Amazônida. Causos das comunidades do interior de Cametá-PA, Memórias das origens de Barcarena-PA, Poesias e Romances da cidade de Belém-PA. Prestigiando o escritor local, produzindo no interior da Amazônia e usando energia limpa; renovável" .

A existência de uma editora ativa na cidade é um fato raro e precioso. Ela oferece serviços de publicação, divulgação de notícias culturais e até uma "Li_v_raria" virtual para venda de livros de autores cametaenses . É a infraestrutura que falta em muitas cidades do interior — e que, em Cametá, já é uma realidade consolidada.

3. Temáticas e Obras: A Estética das Águas e da Crítica

A literatura cametaense, apesar de sua diversidade de vozes e gêneros, converge para alguns eixos temáticos que revelam a alma da cidade — uma alma formada no encontro entre o rio, a tradição religiosa e a luta por justiça social.

Gêneros Predominantes

  • Cordel e Poesia Popular: A tradição do folheto de cordel, trazida do Nordeste e adaptada à realidade amazônica, tem em Arodinei Gaia seu maior expoente. É um gênero acessível, performático e profundamente enraizado na oralidade .

  • Poesia Lírica: João Batista Pantoja representa a vertente mais contemplativa, que transforma a paisagem do Tocantins em verso .

  • Romance: Tanto Salomão Larêdo quanto Genisson Paes apostaram na prosa longa — o primeiro com obras memorialísticas e de ficção amazônica, o segundo com um romance de temática LGBTQIA+ .

  • Memória e História: A pesquisa histórica é um gênero importante em Cametá, como mostram as obras acadêmicas de Gaia e a monumental compilação de Larêdo sobre o Baixo Tocantins .

Temas Centrais

1. A Vida Ribeirinha e o Rio como Personagem
A referência ao Tocantins é ubíqua. João Batista descreve o rio "caudaloso" que "fervilha de espumas" ; Genisson Paes banha seus personagens "pelos ritmos e mistérios dos rios" ; a Editora Lendoas publica "causos das comunidades do interior" . O rio não é apenas cenário — é força vital, obstáculo, via de comunicação e ameaça (como as erosões que assolam o cais de Cametá).

2. A Crítica Social e Política
A literatura cametaense é notavelmente combativa. O cordel de Gaia, como "Ratazanas na terra de Pindorama" e "País do Avesso", carrega uma crítica explícita ao cenário político nacional . João Batista, em seus poemas, denuncia o clientelismo que aprisiona o ribeirinho na relação de favor . Essa veia crítica é uma herança da tradição do cordel nordestino, mas também uma resposta às desigualdades históricas da região.

3. A Religiosidade Popular
A fé católica, mesclada com elementos indígenas e africanos, aparece em múltiplas obras. João Batista descreve a devoção aos santos nas comunidades ribeirinhas: "A contribuição era ofertada / Em moeda corrente, / Aves, / Perfumes, / Alimentos" . Gaia dedicou um cordel inteiro às "Proezas de São Benedito" .

4. A Homoafetividade na Amazônia
Genisson Paes inaugura um tema até então pouco explorado na literatura cametaense: o amor entre pessoas do mesmo sexo ambientado na paisagem amazônica. "Jambo Rosa" não apenas insere Cametá no circuito da literatura LGBTQIA+ nacional como também desafia a imagem da Amazônia como território apenas de "natureza exótica" — mostrando que ali também florescem afetos diversos .

5. A Memória e o Esquecimento
A obra de Salomão Larêdo, "Baixo-Tocantins", é um esforço monumental de registro — uma tentativa de fixar, em mais de mil páginas, as histórias, as vozes e os rostos de uma região que corre o risco de perder suas memórias diante do avanço das grandes obras de infraestrutura e da urbanização acelerada .

Exemplos de Obras Recentes

Autor Obra Ano Gênero Premiações/Observações
Salomão Larêdo Baixo-Tocantins - Na vida de sua gente 2023 História/Memória Publicado pela Ioepa; 1.097 páginas
Salomão Larêdo Olho de Boto Romance Mais popular do autor na Amazon
Genisson Paes Jambo Rosa 2021 Romance LGBTQIA+ Vencedor do Prêmio Variações de Literatura
Arodinei Gaia País do Avesso 2021 Cordel Crítica política
Arodinei Gaia A maldição da residência Barcelar 2022 Romance
Arodinei Gaia (org.) Antologia de Poetas Cametaenses 2016 Poesia Reúne 9 poetas locais
João Batista Pantoja Aturiá Anterior a 2018 Poesia Poemas sobre Cametá e vida ribeirinha
Haroldo Barros O Imaginário da República em Cametá História
Altamir Sassim Dias Raízes do Tocantins Poesia/História

Conclusão

Cametá é, talvez, o segredo literário mais bem guardado do Baixo Tocantins. Enquanto cidades maiores lutam para construir uma tradição intelectual, Cametá já a possui — e a cultiva com uma diversidade impressionante: do cordel popular de Arodinei Gaia ao romance premiado de Genisson Paes, passando pela prosa memorialística de Salomão Larêdo e pela poesia ribeirinha de João Batista Pantoja.

A existência da Academia Cametaense de Letras, da Editora Lendoas e de eventos como a participação constante na Feira Pan-Amazônica do Livro demonstra que não falta estrutura — ou, pelo menos, que a estrutura existente é suficiente para manter a chama acesa. O que falta, talvez, seja visibilidade nacional. Mas a qualidade da produção, medida pelos prêmios conquistados e pela consistência das obras, sugere que esse reconhecimento é apenas uma questão de tempo.

Cametá, afinal, não é apenas a "Rainha do Tocantins". É também uma rainha das letras — que espera, com paciência ribeirinha, que o mundo descubra seus tesouros literários.

Referências

[1] HISTÓRIA E CULTURA CAMETAENSE. Dicas de livros de autores cametaenses. 21 set. 2018. Disponível em: http://historiaeculturacametaense.blogspot.com/2018/09/dicas-de-livros-de-autores-cametaenses.html. Acesso em: 10 abr. 2026.

[2] AMAZON. Salomão Larêdo: livros, biografia, última atualização. Disponível em: https://www.amazon.com.br/Salomao-Laredo/e/B0BVZXJY4N. Acesso em: 10 abr. 2026.

[3] EDITORA LENDOAS. Página oficial. Disponível em: https://www.editoralendoas.com/. Acesso em: 10 abr. 2026.

[4] WIKIPÉDIA. Arodinei Gaia. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Arodinei_Gaia. Acesso em: 10 abr. 2026.

[5] DIAS, Bruna. Escritor de Cametá lança seu primeiro romance. O Liberal, 2022. Disponível em: https://www.oliberal.com/cultura/escritor-de-cameta-lanca-seu-primeiro-romance-1.548375. Acesso em: 10 abr. 2026.

[6] AGÊNCIA PARÁ. Com apoio da Ioepa, escritor Salomão Larêdo lança obra sobre Baixo Tocantins em Cametá. 23 jun. 2023. Disponível em: https://agenciapara.com.br/noticia/44882. Acesso em: 10 abr. 2026.

[7] CAMETÁ OARA. Obras de cametaenses em exposição na XX Feira Pan-Amazônica. 28 maio 2016. Disponível em: https://cametaoara.blogspot.com/2016/05/obras-de-cametaenses-em-exposicao-na-xx.html. Acesso em: 10 abr. 2026.

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