Este município do Estado de Mato Grosso é o centro da literatura estadual, sendo berço de Silva Freire, o poeta do 'intensismo', e de Ricardo Guilherme Dicke, cujas obras exploram a densidade da alma pantaneira.
Além do Cerrado: A Efervescência Literária Independente de Cuiabá
Quando se fala em Cuiabá, a imagem que emerge é a de um caldeirão cultural onde o sagrado e o profano, o rural e o urbano, o popular e o erudito se encontram no ritmo do rasqueado e no sotaque arrastado. Capital do agronegócio e porta de entrada para o Pantanal e o Cerrado, a cidade completa 307 anos em 2026 — e sua cena literária nunca esteve tão viva.
Longe dos holofotes do eixo Rio-São Paulo, Cuiabá respira literatura em cada esquina: nas páginas da Academia Mato-grossense de Letras, nos saraus que lotam casarões históricos, nos selos independentes que desafiam o mercado editorial e, sobretudo, na voz de uma nova geração de escritores que reivindica o direito de contar sua própria história.
Neste artigo, mergulhamos fundo nesse cenário para mapear as raízes, as tradições e, principalmente, os agentes contemporâneos que fazem de Cuiabá um polo de resistência literária no coração do Brasil.
1. Raízes e Tradição: Da Geração Coxipó à Academia
Toda cena literária possui seus alicerces. Em Cuiabá, esses alicerces são profundos e se confundem com a própria história da cidade.
As Primeiras Letras
O século XIX cuiabano viu florescer uma produção literária modesta, mas significativa, centrada em figuras como Francisco Ayres, cujo discurso de posse na Academia Mato-grossense de Letras (fundada em 1921) é um marco da institucionalização da literatura local . No entanto, foi na transição entre os séculos XX e XXI que Cuiabá viveu seu grande "boom" literário.
A Geração Coxipó: A Virada Modernizadora
A movimentação cultural em Cuiabá entre os séculos XX e XXI foi intensa . Desse caldeirão de ideias, surgiu uma nova geração literária ligada à Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), que ficou conhecida como Geração Coxipó .
O grupo — batizado em referência ao Rio Coxipó, que corta a cidade — consolidou-se ao longo dos anos e foi responsável por uma verdadeira "virada literária" que modernizou a estética local sem abrir mão das tradições regionais . Nomes como Ivens Cuiabano Scaff — autor de Kyvaverá, uma ode poética à cidade — emergiram desse movimento, trazendo uma linguagem mais livre, experimental e conectada com as tendências contemporâneas nacionais .
As Guardiãs da Memória
Ao lado dessa vanguarda, uma legião de escritores e cronistas dedicou-se a preservar a memória e a identidade cuiabana. Dentre eles, destacam-se:
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Octayde Jorge da Silva: Coronel e cronista, suas crônicas publicadas em jornais nos anos 1980 foram reunidas em Tempos Idos. Tempos Vividos, um rico panorama histórico-cultural da cidade que preserva causos, personagens e paisagens que o tempo insiste em apagar .
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José Augusto Tenuta: Autor de Cuiabá da Tchapa e da Cruz, o livro é uma "michidinha no baú da história", repleta de expressões regionais e memórias afetivas do Centro Histórico .
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Maria Auxiliadora de Freitas: Historiadora, realizou minucioso levantamento iconográfico em Cuiabá: Imagens da Cidade, reconstituindo a fisionomia da capital desde seus primeiros registros fotográficos até a década de 1960 .
Esses autores, muitos deles imortais da Academia Mato-grossense de Letras (AML) , garantiram que a alma cuiabana não se perdesse no processo de metropolização acelerada das últimas décadas.
2. A Cena Contemporânea: Saraus, Selos Independentes e o Protagonismo Feminino
Se o passado cuiabano é de guardiães solitários, o presente é de coletivos, multidões e autonomia. A cena literária contemporânea da capital se caracteriza por três fenômenos principais: a retomada dos saraus, a explosão dos selos independentes e o protagonismo avassalador das mulheres.
A Volta dos Saraus: A Palavra ao Vivo
A tradição dos saraus cuiabanos é antiga — eles tiveram início no começo do século XX e atingiram seu auge nos anos 1930, realizados em casas particulares, clubes e teatros . Hoje, essa tradição foi resgatada com força total.
Um dos principais endereços dessa nova cena é o Centro Cultural Casa Cuiabana, um casarão tombado como patrimônio histórico no bairro Bandeirantes . Em março de 2026, por exemplo, o espaço recebeu o lançamento do livro "Relacionamentos tensos, meigos, cômicos e... esquisitos" , do jornalista Sergio Luiz Fernandes, seguido de um sarau aberto ao público . A obra é uma coletânea de contos que exploram as complexidades das relações afetivas com uma mistura de drama e humor .
O sarau, mais do que um evento, é um ritual de pertencimento. Ele permite que poetas iniciantes dividam o microfone com autores consagrados, que a plateia interaja e que a literatura saia da estante para ganhar as ruas.
O Selo Arcada: A Autonomia Como Arma
O dado mais animador da pesquisa, no entanto, é a constatação de que a literatura independente em Cuiabá não espera por editores ou editais. Ela se faz com as próprias mãos.
Em 2025, quatro escritores cuiabanos — Lorenzo Falcão, Júlio Custódio, Danilo Fochesatto e Rodrigo Meloni — decidiram "escancarar a boca e mostrar a ferocidade dos dentes" ao criar o selo coletivo Arcada .
A motivação foi prática e urgente: "Estávamos sentados, conversando fiado, e todos tinham livros prontos, mas estava difícil de publicar, porque o mercado editorial é complicado, tem que ter aprovação de editores, lobby e tal", explica Danilo Fochesatto . A solução foi a autopublicação colaborativa, com tiragens de até 500 livros e preços acessíveis (entre R$ 15 e R$ 20) .
Os quatro títulos de lançamento do selo são:
| Autor | Obra | Gênero |
|---|---|---|
| Lorenzo Falcão | Distribuidora Falcão — versos no atacado e varejo | Poesia |
| Júlio Custódio | Você derrubou coisas pelo caminho | Poesia |
| Danilo Fochesatto | Lá, onde uma porta jamais deixou de bater | Contos |
| Rodrigo Meloni | Coitado dos homem cujos desejos dependem | Contos |
O selo, ainda com "quatro dentes", pretende adicionar novos livros à arcada — e a próxima edição já planeja lançar escritoras mulheres . A iniciativa é um modelo de resistência criativa que merece ser replicado.
A Cena Feminina: O Coletivo Maria Taquara
Se há um movimento que define a literatura cuiabana contemporânea, é o protagonismo feminino. E a principal engrenagem dessa força é o Coletivo Literário Maria Taquara — Mulherio das Letras MT .
Criado em novembro de 2018, o coletivo reúne 26 autoras e tem como objetivo fomentar a participação da mulher na literatura e na arte, além de defender políticas públicas para o fomento da leitura . Em 2021, o grupo realizou uma série de oficinas gratuitas online de escrita criativa, contempladas pelo Edital Estevão de Mendonça de Literatura, abrangendo desde slam até poesia visual, passando por prosa, crônica e narrativas curtas .
Entre as integrantes e colaboradoras do coletivo, estão algumas das vozes mais importantes da nova literatura mato-grossense:
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Divanize Carbonieri: Finalista do Prêmio Jabuti, é uma das grandes referências da prosa curta contemporânea .
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Jade Rainho: Poeta, documentarista e ativista, autora de Canção da Liberdade e realizadora do documentário premiado Flor Brilhante e as cicatrizes da pedra .
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Juçara Naccioli: Poeta finalista do Prêmio Off Flip 2019, teve sua obra Chão batido selecionada pelo edital MT Nascentes .
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Luciene Carvalho: Autora de mais de uma dezena de livros, ocupa a cadeira nº 31 da Academia Mato-grossense de Letras e realiza shows poéticos que unem poesia, figurino e música .
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Marli Walker: Professora do IFMT, autora de Pó de serra e Jardim de ossos, teve obra selecionada pelo PNLD .
Outros Nomes da Cena Independente
Além dos já citados, a cena cuiabana pulsa com uma diversidade de vozes que merecem destaque:
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Andreza Pereira: Jornalista e pesquisadora, coautora de Água não tem galho (2020), uma obra que explora a palavra como travessia .
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Ângela Coradini: Poeta, realizadora audiovisual e editora da revista eletrônica Ruído Manifesto, autora de Já não podem ser amanhã (2020) .
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Cristina Campos: Doutora em Educação e ocupante da Cadeira 16 da AML, é autora de obras fundamentais sobre o falar cuiabano e a literatura pantaneira, como O falar cuiabano (2014) .
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Mariana Gouveia: Escritora radicada em Cuiabá há 35 anos, lançou Corredores — Codinome: Loucura, um romance que discute o conceito de loucura através da história de Maria, uma menina internada em hospício . A obra foi publicada com encadernação artesanal pela editora Scenarium Plural, que produz livros em tiragem limitada e formatos especiais .
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Sergio Luiz Fernandes: Jornalista, autor de Relacionamentos tensos, meigos, cômicos e... esquisitos (2026), coletânea de contos sobre as complexidades das relações afetivas .
3. Temáticas e Obras: O Que Escrevem os Cuiabanos de Hoje
Gêneros Predominantes
A produção literária cuiabana contemporânea é marcada por uma diversidade estilística que reflete a própria pluralidade da cidade. Os gêneros mais recorrentes são:
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Poesia: Ainda é o gênero rainho, herdeira da tradição lírica regional, mas agora com experimentações visuais, slams e poesia marginal .
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Conto: A prosa curta tem forte presença, especialmente nas obras de Danilo Fochesatto, Rodrigo Meloni e Sergio Luiz Fernandes .
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Literatura Infantojuvenil: Daniela Freire, por exemplo, publicou Bugrinho: que menino é esse? (biografia do pai, o poeta Silva Freire) e Jeri Kurireu, o menino que se reinventou .
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Romance e Ficção: Mariana Gouveia e Sergio Fernandes (com Turbati — Os Portais, de fantasia medieval) representam essa vertente .
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Memória e Crônica: A tradição da crônica histórica e memorialística segue forte, com obras como Cuiabália: Crônicas, de Hélio Pimentel .
Temáticas Recorrentes
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Amor e Loucura: Mariana Gouveia discute o amor como "processo de resiliência" em Corredores .
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Memória e Identidade Cuiabana: Uma vasta produção de livros históricos e fotográficos busca preservar a cidade que se transforma, como Cuiabá. De vila à metrópole nascente e São Gonçalo Velho .
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Poéticas do Cotidiano: Oficinas do coletivo Maria Taquara abordam "poéticas do cotidiano em contos curtos" e "narrativas urbanas contra o medo" .
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Etimologia e Ancestralidade Indígena: Paulo Pitaluga Costa e Silva, em Cuyaverá. Cuiabá: a lontra brilhante, resgata a origem do nome da cidade a partir do termo guarani Kyyaverá (Lontra Brilhante) .
Obras Recentes de Destaque
| Título | Autor(a) | Ano | Gênero |
|---|---|---|---|
| Relacionamentos tensos, meigos, cômicos e... esquisitos | Sergio Luiz Fernandes | 2026 | Contos |
| Corredores — Codinome: Loucura | Mariana Gouveia | 2025/2026 | Romance |
| Sete Luas (coletânea) | Adriana Aneli, Mariana Gouveia e outras | 2025/2026 | Poesia |
| Coitado dos homem cujos desejos dependem | Rodrigo Meloni | 2025 | Contos |
| Você derrubou coisas pelo caminho | Júlio Custódio | 2025 | Poesia |
| Distribuidora Falcão | Lorenzo Falcão | 2025 | Poesia |
| Lá, onde uma porta jamais deixou de bater | Danilo Fochesatto | 2025 | Contos |
4. O Palco das Ideias: A Casa Cuiabana e os Espaços de Resistência
Nenhuma análise estaria completa sem mencionar os espaços que abrigam e alimentam essa cena.
O Centro Cultural Casa Cuiabana é, sem dúvida, o principal deles. Gerido pela Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e Lazer (Secel-MT), o casarão tombado recebe constantemente lançamentos de livros, saraus, exposições e eventos voltados à valorização da cultura mato-grossense .
Outro espaço histórico é o Sebo Raro Ruído, que sediou o pré-lançamento do selo Arcada . Livrarias, sebos e cafés literários funcionam como territórios de encontro onde a palavra circula livremente, longe das amarras comerciais.
Referências
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[1] Carbonieri, D. (2021). Especial Literatura | Vinte autoras de/em Cuiabá. Ser Mulher Arte. Disponível em: http://www.sermulherarte.com/
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[2] Olhar Conceito. (2025). Escritores de Cuiabá lançam selo independente para publicar livros. Disponível em: https://www.olharconceito.com.br/
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[4] Secel-MT. (2026). Casa Cuiabana recebe lançamento de livro e sarau literário na sexta-feira (20). Disponível em: https://www.secel.mt.gov.br/
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[5] O Livre. (2026). Literatura: conheça a memória de Cuiabá guardada nos livros. Disponível em: https://olivre.com.br/
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[7] Diário de Cuiabá. (2005). Casa Cuiabana revive antigos saraus. Disponível em: https://www.diariodecuiaba.com.br/
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[8] Secel-MT. (2021). Coletivo literário Maria Taquara realiza oficinas online gratuitas. Disponível em: https://www.secel.mt.gov.br/
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[9] Mahon, E. (2019). Cuiabá entre dois séculos: surge uma nova geração literária. Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso, 1(81), 283–302.
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[10] O Livre. (2025/2026). Escritora de Cuiabá lança livros de romance e poesia com selo de encadernação artesanal. Disponível em: https://olivre.com.br/
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👥 Pesquisa por Guilherme Felipe, Curadoria Sílvio Lôbo















