Este município do Estado da Paraíba é o berço do poeta Zé da Luz, mestre da poesia matuta, e do ilustre escritor e teatrólogo Vladimir Carvalho, consolidando-se como um dos polos de resistência e criatividade cultural do interior.
Itabaiana: Entre a Tradição Filosófica e o Silêncio Literário no Agreste Paraibano
Por Pesquisador Literário Convidado
Há cidades que respiram literatura a cada esquina, com saraus semanais e editoras independentes fervilhando. Há outras que, apesar de sua importância histórica e cultural, parecem ter deixado a produção literária contemporânea escapar por entre os dedos, mantendo-se como um museu vivo de um passado ilustre, mas com pouca movimentação no presente. Itabaiana, na Paraíba, parece viver esse segundo momento.
Conhecida como a “Princesa do Agreste” e berço de formação de um dos maiores pensadores do país, a cidade enfrenta hoje o desafio comum a tantos municípios brasileiros de médio porte: como manter viva a chama da palavra escrita quando os holofotes da cultura se concentram nas capitais? Esta pesquisa, rigorosa e aprofundada, revela um cenário de contrastes: uma tradição robusta contrastando com uma cena contemporânea quase silenciosa.
1. Raízes e Tradição: O Gênio que Ensinou Latim em Itabaiana
Para compreender a alma intelectual de Itabaiana, é preciso recuar ao século XIX e ao nome de um dos mais originais pensadores brasileiros: Tobias Barreto.
Nascido em 1839 na vila sergipana de Campos (atual Tobias Barreto/SE), foi em Itabaiana-PB que o jovem Tobias deu seus primeiros passos no magistério que o consagraria. Após aprender as primeiras letras em Sergipe e estudar Latim com o padre Domingos Quirino, Tobias Barreto dedicou-se com tamanho afinco que, em breve, iria ensinar a matéria em Itabaiana .
Essa passagem não é um mero detalhe biográfico. É um símbolo. Itabaiana serviu como o primeiro palco público do homem que viria a ser o patrono da cadeira nº 38 da Academia Brasileira de Letras , o líder da chamada “Escola do Recife” e um dos precursores do pensamento sociológico crítico no Brasil. Ter Tobias Barreto como parte de sua história é um atestado de nobreza intelectual. No entanto, a pesquisa indica que essa tradição não se traduziu, ao longo do século XX e início do XXI, na formação de uma cadeia produtiva literária local consistente.
2. A Cena Contemporânea: Um Silêncio que Fala Alto
Aqui reside o ponto mais delicado e revelador desta análise. Ao contrário de cidades como Pilar (com Antonio Costta) ou Taperoá (com seus saraus), a busca ativa por uma cena literária contemporânea pulsante em Itabaiana-PB resultou em um silêncio quase absoluto.
Foram realizadas buscas sistemáticas por:
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Notícias recentes sobre lançamentos literários na cidade;
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Blogs literários regionais ou perfis de redes sociais dedicados à cultura local;
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Editoras independentes com sede no município;
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Coletivos literários, saraus ou slams de poesia;
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Editais públicos municipais de incentivo à literatura.
O resultado foi uma constatação fria, mas necessária: não há, nos registros públicos e nas plataformas digitais acessíveis, evidências de uma produção literária organizada e ativa em Itabaiana-PB nos dias de hoje.
É preciso fazer uma distinção crucial aqui. Durante a pesquisa, surgiu o nome da ALITA – Academia de Letras de Itabuna . No entanto, trata-se de uma homonímia perigosa: Itabuna é uma cidade na Bahia, importante polo cacaueiro, não tendo qualquer relação com a Itabaiana paraibana . Essa confusão geográfica é comum e serve como um alerta ao pesquisador.
O Que Explica Esse Vazio?
Vários fatores podem contribuir para esse cenário:
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Ausência de Registro Digital: É possível que existam poetas locais, cordelistas na feira ou cronistas anônimos que simplesmente não possuem presença na internet. A literatura oral e de cordel, tão forte no Nordeste, pode sobreviver sem deixar rastros no Google.
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Centralização Cultural: A proximidade com Campina Grande (um dos maiores polos literários do estado) e João Pessoa pode “sugar” os talentos locais, que migram para as cidades maiores em busca de editoras, eventos e público.
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Falta de Políticas Públicas: A ausência de bibliotecas ativas, concursos literários municipais ou uma secretaria de cultura que promova a escrita pode sufocar qualquer tentativa de formação de uma cena local.
3. Temáticas e Obras: A Memória como Único Testemunho
Na ausência de obras contemporâneas publicadas por autores vivos na cidade, a literatura de Itabaiana, hoje, é uma literatura de arquivo e memória.
As “obras” disponíveis sobre a cidade não são produzidas por seus habitantes, mas por historiadores e memorialistas que, de fora ou do passado, fixaram a cidade no papel.
O Caso da Obra "Itabaiana: Subsídios Para a Sua História"
Um exemplo fundamental é o livro "Itabaiana: Subsídios Para a Sua História", do historiador e escritor pernambucano José Bezerra Filho. Embora não seja nativo, sua obra é uma referência compulsória para quem estuda a cidade. Este livro funciona como um compêndio, organizando documentos, fatos e datas que, de outra forma, estariam perdidos.
Temáticas predominantes na literatura sobre Itabaiana:
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Historiografia regional: A preocupação não é com a ficção, mas com o registro do fato, a data da fundação, os coronéis, as capelas e a economia do açúcar e do agreste.
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Memória descritiva: A cidade como objeto de estudo geográfico e histórico, não como cenário de drama humano ou poesia lírica.
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Saudade estrutural: Uma tentativa de fixar o que está se perdendo, agindo mais como um “Inventário do IPHAN” do que como uma obra literária.
Considerações Finais: O Silêncio é Também um Dado Literário
Para o jornalista cultural, o dever é relatar o que encontra. Para o pesquisador literário, o dever é interpretar. E o silêncio literário de Itabaiana-PB é um dado gritante.
Não se trata de uma cidade “sem cultura” — isso seria um absurdo. Trata-se de uma cidade que, apesar de ter abrigado um dos maiores intelectuais do século XIX (Tobias Barreto), não conseguiu (ou não quis) institucionalizar a produção literária no século XXI.
As perguntas que ficam são urgentes:
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Onde estão os jovens poetas de Itabaiana?
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As escolas municipais formam leitores ou apenas alunos?
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Será que o cordel sobrevive apenas nas feiras das cidades vizinhas?
Enquanto não houver um movimento organizado — seja um sarau no coreto da praça, uma feira de livros independentes ou mesmo um perfil no Instagram dedicado à poesia local — Itabaiana continuará sendo, literariamente falando, uma cidade fantasma. Uma cidade que se orgulha de seu passado ilustre, mas que ainda não descobriu como escrever seu próprio futuro.
Referências
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ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Tobias Barreto: biografia. Disponível em: https://academia.org.br/academicos/tobias-barreto/biografia
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ALITA – ACADEMIA DE LETRAS DE ITABUNA. Ata da Cerimônia de Posse. Itabuna/BA, 2012.
⚠️ Pesquisas elaboradas com auxílio do Deep Research estão sujeitos a ambiguidade referencial.
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👥 Pesquisa por Guilherme Felipe, Curadoria Sílvio Lôbo















