Este município do Estado de Rondônia, o Coração de Rondônia, destaca-se por sua efervescência cultural e por sediar eventos que promovem escritores locais focados em narrativas sobre a migração e a transformação da paisagem amazônica em um polo produtivo.
A Palavra que Floresce na Selva de Concreto: A Cena Literária de Ji-Paraná
Por Pesquisador Literário Convidado
Ji-Paraná. O nome já evoca a força indígena — uma homenagem ao grande cacique Pajé Ji-Paraná, que marcou a história da região. Hoje, a capital econômica do interior de Rondônia é muito mais que um entroncamento rodoviário. É um caldeirão de memórias de migrantes, poetas anônimos e uma nova geração que, munida de leis de incentivo e muita coragem, está reescrevendo o mapa literário da Amazônia.
Se Porto Velho respira a tradição dos barões da borracha, Ji-Paraná pulsa no ritmo da saudade do nordestino que aqui chegou, da força do trabalhador e da urgência do agora. Este artigo é uma expedição pelas entrelinhas dessa cidade que, em 2025, finalmente ganhou seu primeiro grande festival literário.
1. Raízes e Tradição: A Memória Viva de "Seu Melinho"
A literatura ji-paranaense, assim como a própria cidade (fundada oficialmente em 1977), é filha da migração. Diferente dos centros históricos seculares, aqui a tradição literária não se encontra em arcas antigas, mas na memória vívida de seus desbravadores.
A figura mais emblemática dessa tradição oral e escrita é, sem dúvida, Francisco Manoel de Melo, o poeta "Melinho" . Pernambucano de nascimento, mas ji-paranaense de alma, Melinho chegou à cidade em busca do "ar puro da Amazônia" e fincou raízes profundas. Aos 87 anos, ele representa a ponte viva entre o imaginário nordestino e a realidade amazônica.
Com apenas o ensino médio completo, Melinho provou que a poesia não exige diploma, exige alma. Seu primeiro livro, "Do Choro ao Riso" (1993), é uma catarse autobiográfica que resume o drama do migrante que deixa o Nordeste chorando e encontra na terra rondoniense o motivo para sorrir novamente . Trovador nato — influenciado pelo cordel —, ele carrega na memória "prodigiosa" todos os seus versos. Ao falar de sua descoberta da trova, ele sintetiza a relação do escritor local com a palavra:
"Peguei as regras do jogo / Eu que já estava disposto / A pôr meus versos no fogo / Então, vi que eu tinha nascido trovador" .
Melinho, com seus 10 livros lançados (incluindo o recente "Franciscologia"), é o patriarca da cena. Ele é a prova de que em Ji-Paraná a literatura nasce da necessidade de contar a própria história.
2. A Cena Contemporânea: O Marco do JIPALÊ e a Geração Angela Bretas
Se a tradição foi construída por trovadores solitários, a cena contemporânea é coletiva, barulhenta e organizada. E o grande catalisador desse movimento em 2025 foi o JIPALÊ — Primeiro Festival Literário de Ji-Paraná .
Realizado no dia 27 de julho de 2025, no Auditório Leila Barreiros, o JIPALÊ não foi apenas um evento; foi um divisor de águas. Idealizado e coordenado pela escritora, jornalista e produtora cultural Angela Bretas, o festival nasceu do fomento da Lei Paulo Gustavo, provando que políticas públicas são essenciais para descentralizar a cultura .
Angela Bretas, figura central dessa nova cena, é um furacão literário. Residente na zona rural de Ji-Paraná, ela é trilíngue, acadêmica da Academia Brasileira de Letras (SP) e membro da União de Escritores Brasileiros de Nova Iorque. Ao invés de lançar uma obra solo com o recurso público, ela tomou uma atitude que define seu caráter agregador: abriu um edital para criar uma antologia coletiva.
O resultado foi o livro "Brava Gente Brasileira em Terras Amazônicas" , uma obra de 235 páginas que reúne 57 coautores . Este livro é o retrato mais fiel da diversidade local:
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22 autores residem em Ji-Paraná (a maioria absoluta).
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11 autores vieram de Porto Velho.
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Representantes de cidades pequenas como Seringueiras, Cujubim e Vale do Paraíso.
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Inclusão de escritores indígenas e um escritor com deficiência visual total .
O JIPALÊ também contou com uma Feira do Livro massiva, reunindo mais de 40 autores independentes confirmados. O movimento é tão forte que atraiu escritores de São Paulo, Ceará, Amapá e até da Itália . Entre os talentos locais confirmados, a pesquisa aponta nomes como Gustavo Rebouças (que também teve obra sobre história regional lançada na cidade) e dezenas de outros pequenos editores e escritores que, até então, estavam invisíveis para o grande público.
Além dos eventos, a cidade respira literatura através de iniciativas como as contrapartidas sociais do festival, que visam fundar uma biblioteca comunitária na APAE local, provando que a nova literatura ji-paranaense tem compromisso social .
3. Temáticas e Obras: A Alma Cabocla em Verso e Prosa
Qual é a cara da produção literária de Ji-Paraná? A pesquisa mostra um cenário dominado pela poesia e pela memória afetiva.
Gêneros Predominantes
A Poesia e a Trova (herança nordestina) são soberanas, vide a obra de Melinho. No entanto, a Antologia e o conto regionalista ganham força com a nova geração. O formato e-book e a publicação independente são os principais canais de distribuição, mas o sonho do livro físico ainda é a maior conquista para esses autores .
Temas Recorrentes
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A Saga do Migrante: A dor de deixar a terra natal e o (re)encontro com a Amazônia. O título "Do Choro ao Riso" é o perfeito resumo desse sentimento.
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Memórias da Vila: O festival JIPALÊ estimulou especificamente textos sobre as "Memórias de Vila de Rondônia" , resgatando o período da construção da BR-364 e os tempos em que Ji-Paraná era ainda um povoado .
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A Natureza Urbana: A flora e fauna do bioma amazônico servem como pano de fundo, não como cenário exótico, mas como elemento vivo que interage com a expansão da cidade.
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Inclusão e Resistência: A presença de autores indígenas e PcDs no edital do JIPALÊ mostra um movimento consciente de pluralidade, onde a literatura serve como ferramenta de visibilidade para grupos historicamente silenciados .
Exemplos de Obras Recentes
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Melinho (Francisco Manoel de Melo): Franciscologia (Último lançamento) e Do Choro ao Riso (1993) — Poesia e memória .
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Coletivo JIPALÊ: Brava Gente Brasileira em Terras Amazônicas (2025) — Antologia com 57 autores, organizada por Angela Bretas .
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Gustavo Rebouças: Lançamento de livro sobre história regional (detalhes em mídia local) .
Conclusão: O Interior que Ensina o Brasil a Ler
Ji-Paraná está em ebulição. A cena literária da cidade, que por décadas dependeu da memória prodigiosa de um único trovador (Melinho), agora conta com um exército de pequenos escritores empoderados por editais e pelo desejo de ocupar espaços.
O JIPALÊ de 2025 mostrou que a "Brava Gente Brasileira" não está apenas nos livros de história; está nas filas dos eventos de Ji-Paraná, comprando livros independentes e lotando auditórios. Para o pesquisador que busca a literatura verdadeira, fora do eixo comercial padrão, Ji-Paraná é, neste momento, um dos termômetros mais quentes da nova literatura amazônica.
Referências
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VIP FESTA. Primeiro Festival Literário de Ji-Paraná (JIPALÊ) será palco da literatura da região norte. 2025.
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GLOBOPLAY. Jornal de Rondônia 1ª Edição | Livro sobre a história regional é lançado em Ji-Paraná, RO (Entrevista com Gustavo Rebouças). 2025.
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G1 JI-PARANÁ. Entre versos e trovas, poeta 'Melinho' conta trajetória no mundo das letras em RO. Pâmela Fernandes.
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ARTE PLURAL GALERIA. Projeto Sarau Plural (Recife) — Contexto cultural geral.
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FACEBOOK - PERERÊ MÍDIA. Post sobre identidade cultural de Ji-Paraná.
⚠️ Pesquisas elaboradas com auxílio do Deep Research estão sujeitos a ambiguidade referencial.
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