Este município do Estado da Paraíba é mundialmente conhecido como a terra natal do romancista José Lins do Rego, autor do Ciclo da Cana-de-Açúcar e da obra-prima Menino de Engenho, que imortalizou a vida nos antigos engenhos.
Pilares da Palavra: O Fervor Literário de Pilar, Berço de Zé Lins do Rego
Há cidades que respiram literatura. Não apenas porque abrigam livrarias ou eventos, mas porque a palavra escrita parece fazer parte do seu tecido histórico e do cotidiano de seus habitantes. Pilar, na Mata Paraibana, é um desses raros lugares. Conhecida nacionalmente por ser a terra natal do gigante José Lins do Rego, a cidade revela, sob a superfície da tradição, uma cena contemporânea pulsante, movida por autores independentes que transformam a saudade e a memória em arte.
Neste artigo, mergulhamos na produção literária pilarense para mostrar que, longe dos holofotes do eixo Rio-São Paulo, a literatura brasileira vive e se reinventa com vigor.
1. Raízes e Tradição: O Berço do Romance de Cana-de-Açúcar
Para entender a alma literária de Pilar, é preciso voltar ao ciclo da cana-de-açúcar. A cidade, que já foi um polo econômico vital da província e "Cidade Mãe" de diversos municípios da região , carrega em sua geografia a memória dos engenhos. Foi nesse ambiente que, em 1901, nasceu José Lins do Rego, autor imortal da literatura brasileira e patrono da cadeira 25 da Academia Brasileira de Letras.
Zé Lins é a pedra fundamental. Sua obra, que transcende o regionalismo para tocar no universal, imortalizou o universo dos bangüês, da vida nos engenhos e da decadência do ciclo açucareiro. Pilar aparece em seus romances não apenas como cenário, mas como personagem viva. Além dele, a tradição oral local celebra nomes como Manoel Xudu (poeta repentista), Zé Augusto Brito (cronista e poeta) e Damião Ramos Cavalcanti, figuras que mantiveram acesa a chama da poesia nas décadas seguintes .
No entanto, a grande surpresa para o pesquisador que chega à cidade não é apenas o culto a esses mestres, mas a constatação de que a produção literária local está longe de ser um museu.
2. A Cena Contemporânea: O Fervor da Edição Independente
O foco principal desta análise recai sobre o presente. E aqui, um nome se destaca como figura central e catalisador da cena literária contemporânea de Pilar: Antonio Costta (Antonio da Costa Silva) .
Costta é um fenômeno raro no circuito literário nacional. Poeta, educador, artista plástico e ex-vereador, ele representa a essência do autor independente brasileiro. Com mais de 30 livros publicados, todos disponíveis em plataformas como o Clube de Autores, Costta não esperou a validação das grandes editoras para divulgar seu trabalho. Ele simplesmente construiu, com disciplina e amor à terra, uma obra monumental.
O que torna a cena pilarense tão rica é o fato de Costta ter formado uma verdadeira rede de colaboração. Em vez de escrever isoladamente, ele organizou uma galáxia literária. Sua obra mais emblemática nesse sentido é a coletânea "Os Pilares do Brasil - Poemas & Crônicas" .
Um Projeto de Integração Nacional: Este livro é um caso atípico de sucesso regional. Costta uniu 17 escritores de todas as seis cidades brasileiras que levam o nome "Pilar" (PB, AL, SP, GO, MG, RS). Entre os autores, ao lado do próprio Antonio, estão desde o consagrado José Lins do Rego até anônimos locais como Riso Maria, Lucimário Augusto e Sérgio Moraes . O projeto foi lançado em eventos que percorreram Alagoas, São Paulo e, claro, a Semana Cultural José Lins do Rego na Paraíba, mostrando como a periferia geográfica pode dialogar consigo mesma através da literatura.
Além da curadoria, Costta é uma máquina de produção literária. A análise dos títulos publicados entre 2003 e 2017 revela uma variedade impressionante de gêneros, que vão da poesia intimista (Lira dos Quarenta Anos) à literatura cristã (Poesia Cristã), passando por sonetos e trovas .
3. Temáticas e Obras: A Poética do Engenho e da Saudade
Se José Lins do Rego escreveu sobre o “Menino de Engenho”, a nova geração de escritores de Pilar (liderada por Costta) escreve sobre a saudade desse engenho. A temática predominante é a memória rural e a valorização do Nordeste profundo.
A poesia de Antonio Costta, em especial, é um laboratório de análise da alma interiorana. Em seus versos, disponíveis em coletâneas digitais e impressas, ele resgata objetos e sabores que desapareceram no imaginário urbano.
Exemplos de Obras e Temas Recorrentes:
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Memorialismo e Infância: No poema "No Chão da Saudade", Costta não usa uma linguagem rebuscada; ele usa a precisão do afeto. Ele canta o "chão da memória" onde brincava com "bola de gude, carrinho e pião" e pescava "piaba com meu jereré" . É uma arqueologia da infância pobre e feliz, típica da zona canavieira.
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Culinária e Identidade: A comida nordestina é um símbolo de pertencimento. Em "O Sabor da Minha Terra", o poeta declara seu amor por itens específicos: "buchada de bode", "traíra de coco", "pirão de galinha" e "raspadura" . Ao listar esses elementos, ele não está apenas descrevendo hábitos, mas construindo uma barreira contra o esquecimento.
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Valorização Histórica: Costta e seus colegas agem como verdadeiros "escribas" da memória local. O livro "Visita de D. Pedro II à Pilar-PB e Outros Poemas Pilarenses" é um exemplo claro de como a literatura local resgata episódios históricos (a passagem do imperador pela vila em 1859) que muitas vezes são ignorados pela historiografia oficial.
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A Natureza como Sujeito: O Rio Paraíba é presença constante. No soneto "Águas da Poesia", Costta cria uma imagem belíssima e inevitável: ele tenta esquecer a terra, mas as águas de sua poesia, assim como o rio, "têm que passar por Pilar" . A paisagem geográfica dita o ritmo da produção artística.
4. O Caso Específico: Pilar é Literatura (Mesmo Fora do Mapa)
Durante a pesquisa, foi necessário filtrar homônimos internacionais importantes, como a Basílica del Pilar em Buenos Aires (imortalizada por Jorge Luis Borges) e a escritora argentina-canadense Pilar Miralles , ou ainda a série infantil "Diário de Pilar", da carioca Flávia Lins e Silva . Todos esses "Pilares" são literários, mas não se referem à nossa cidade.
No entanto, a existência desses homônimos serve para mostrar um fenômeno curioso: enquanto o mundo conhece "Pilar" como um nome de igreja ou personagem, na Paraíba, Pilar é um verbo, um ato de criação. A cidade não apenas aparece em obras; ela produz obras.
A produção de Antonio Costta e sua rede de colaboradores demonstra um fenômeno cultural significativo: o fortalecimento do cordel e da poografia (poesia de fotografia social) como ferramenta de resistência. Costta é membro da Academia de Cordel do Vale do Paraíba , e seus versos frequentemente adotam a métrica da redondilha (o ritmo do cordel), como visto em "Seja Bem Vindo à Pilar", que funciona como um guia turístico afetivo da cidade.
Considerações Finais
A cena literária de Pilar, Paraíba, pode ser resumida em uma palavra: resiliência. Em um país onde a publicação independente ainda é vista com reservas por alguns setores da crítica, Antonio Costta e seus parceiros transformam a limitação geográfica e financeira em potência criativa.
Eles não escrevem para agradar ao mercado; escrevem para fixar a própria existência. Cada livro publicado no Clube de Autores, cada poema recitado nas semanas culturais da cidade, é um ato de afirmação de que a literatura brasileira não cabe apenas nas prateleiras das grandes livrarias. Ela respira também nas calçadas quentes de Pilar, na memória dos engenhos e na saudade que, para esses autores, é matéria-prima para a arte.
Se José Lins do Rego mostrou o menino de engenho para o mundo, Antonio Costta mostra o poeta de engenho que insiste em cantar o chão que pisa.
Referências
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COSTTA, Antonio. Visita de D. Pedro II à Pilar-PB e Outros Poemas Pilarenses. Literary Highways, 2020.
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Blog Tribuna do Vale. “Escritor de Pilar lança livro sobre cidades homônimas”. 25 dez. 2017.
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COSTTA, Antonio. “Poemas em Homenagem à Pilar-PB”. Recanto das Letras, 2018.
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Blog Pilar-PB (Notícias). “Livro ‘Os Pilares do Brasil’ é lançado em Pilar - AL”. 13 abr. 2018.
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Blog Pilar-PB (Notícias). “Poeta Antonio Costta lança ‘Os Pilares do Brasil – Poemas & Crônicas’”. 23 dez. 2017.
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👥 Pesquisa por Guilherme Felipe, Curadoria Sílvio Lôbo















