Além de suas belezas naturais, a cidade é a terra natal do escritor e teatrólogo Walmir Ayala, cuja vasta obra abrange desde a crítica de arte e poesia até a literatura infantil e juvenil.
Além das Ondas: A Efervescência Literária Independente de Saquarema
Quando se fala em Saquarema, a Região dos Lagos do Rio de Janeiro, a imagem que vem à mente é quase unânime: ondas perfeitas, paraísos de surf e o astral descolado da "Capital Nacional do Surf". No entanto, ancorada nas areias de Jaconé e Itaúna, há uma cena cultural que cresce silenciosa, mas com a força da maresia. Trata-se de uma efervescência literária que, longe dos holofotes do eixo Rio-São Paulo, se fortalece através de coletivos, feiras internacionais e uma nova geração de escritores que encontram na cidade não apenas um lar, mas uma musa inspiradora.
Neste artigo, mergulhamos fundo nesse cenário para mapear as raízes, as tradições e, principalmente, os agentes contemporâneos que fazem de Saquarema um polo de resistência literária no interior fluminense.
1. Raízes e Tradição: O Patrono da ABL e a Memória Local
Toda cadeia literária possui um elo fundador. No caso de Saquarema, esse elo é de ouro e data do século XIX. Para entender a produção atual, é preciso reverenciar aquele que é, até hoje, o maior expoente literário da cidade: Alberto de Oliveira (1857-1937).
Nascido em Palmital de Saquarema, Alberto de Oliveira foi um dos pilares do Parnasianismo no Brasil. Ao lado de Olavo Bilac e Raimundo Correia, formou a tríade que definiu a poesia da época, primando pela estética rigorosa, pela linguagem culta e pela impessoalidade. Sua importância é tamanha que ele foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras (ABL) , ocupando a cadeira de número 8 .
A sombra do "poeta das coisas frias", como ficou conhecido por sua objetividade lírica, é longa. Durante décadas, a tradição literária saquarense esteve umbilicalmente ligada à sua herança. Contudo, como veremos, a cena contemporânea conseguiu o feito de honrar essa tradição enquanto a subverte, abrindo espaço para a subjetividade, a diversidade e a experimentação.
2. A Cena Contemporânea: O Protagonismo do Coletivo e da Juventude
Se Alberto de Oliveira representa o monumento, os escritores de hoje representam o movimento. E a principal engrenagem desse motor cultural é, sem dúvida, a Confraria dos Escritores Independentes de Saquarema (C.E.I.S.) .
O Grito de União: A Confraria (C.E.I.S.)
A história da C.E.I.S. é emblemática do fenômeno da "força do encontro". Tudo começou durante a Feira Literária Internacional de Saquarema (FLIS) de 2023, quando autores locais, que viviam o isolamento de quem produz arte fora do centro, se reconheceram . Desse desejo de "dividir angústias e anseios", como define o grupo, nasceu a Confraria.
Sob a presidência de Mauro Profetta — jornalista, compositor e escritor premiado — a C.E.I.S. tem um objetivo claro: não apenas publicar, mas ocupar a cidade. Eles promovem saraus, intervenções em espaços públicos e suporte mútuo entre os associados . "Uma confraria de escritores possibilita uma mudança de patamar da cidade no que diz respeito aos seus rumos culturais", afirmou Profetta em entrevista . Este movimento é vital, pois tira a literatura da estante e a coloca na praça, dialogando diretamente com o não leitor.
Os Pequenos (Grandes) Autores do Mainstream Local
Dentro da C.E.I.S., encontramos um mosaico de vozes que representam a diversidade etária e estilística da cidade. Diferente de outras regiões onde a literatura local é dominada por um único gênero, Saquarema abriga desde poetas líricos até contistas de horror e realismo fantástico.
Entre os nomes que movimentam a cena, podemos destacar, com base na primeira antologia do grupo:
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Charles O. Soares, Elizabeth Azeredo e Flavy Bastos: Nomes recorrentes em antologias e saraus, representando a consistência da produção literária local.
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Janaína Nery, Juliana Ferreira e Thays Miranda: Vozes femininas que, dentro do coletivo, têm se destacado pela abordagem da mulher contemporânea, seus afetos e desafios.
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Vera Lúcia Lebedenco e Maíra Gomes: Trazem uma sensibilidade aguçada para a poesia, muitas vezes flertando com a memória afetiva da cidade.
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Neudimar dos Santos Aguiar: Um caso especial, pois além de autora, é avó de um dos jovens fenômenos da FLIS (que veremos a seguir), mostrando que a literatura é também herança de família .
A Revolução dos Fanzines e a Nova Geração
O dado mais animador da pesquisa, no entanto, é a constatação de que a "literatura independente" em Saquarema não é privilégio de adultos. Durante a FLIS de 2025, um evento paralelo roubou a cena: a mesa "Era Uma Vez um Futuro" , onde crianças e adolescentes lançaram seus próprios livros .
Aqui, a cena se conecta diretamente com o projeto de incentivo à leitura da prefeitura, o "Escola que Lê" . Mais do que distribuir sacolas literárias para 20 mil alunos em 80 escolas, o projeto criou um ecossistema onde o aluno se torna protagonista .
Conheça os pequenos escritores que são a cara do futuro literário de Saquarema:
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Miguel Aguiar (10 anos): Autor de "Menino Mal Educado" . Diagnosticado com TDAH, Miguel encontrou na leitura e na escrita uma ferramenta de expressão e disciplina. Inspirado pela avó (a também escritora Neudimar Aguiar), ele já declara que quer "escrever até ficar grande" .
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Alícia Libório (10 anos): Autora de "A Era da Princesa" . Sua obra trata de amizade e superação de maus-tratos, provando que o público infantojuvenil não foge de temas complexos, abordando-os com a pureza e a coragem de quem está descobrindo o poder das palavras .
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Sophia Duarte (15 anos): O exemplo mais bem-acabado do ciclo virtuoso da FLIS. Sophia comprou seu primeiro livro lido sozinho na primeira edição da feira. Anos depois, retornou não como visitante, mas como autora lançando "Os Senhores de Saíriat – O Oceano das Três Verdades" , o primeiro volume de uma trilogia de fantasia .
3. Temáticas e Obras Recentes
"Saquarema em Verso e Prosa" (Editora Uli)
A grande obra-síntese deste momento é a antologia "Saquarema em Verso e Prosa" , o primeiro livro da C.E.I.S. . Lançado durante a FLIS de 2024, a obra reúne 17 autores e serve como um retrato 4K da literatura local.
A curadoria da antologia revela as temáticas predominantes na região:
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Atopia e Identidade: A maioria dos textos tem Saquarema como cenário ou tema central. Não se trata de um mero "guia turístico", mas de uma exploração psicológica do que significa viver em uma cidade de contrastes (tradição religiosa vs. modernidade do surf; natureza preservada vs. especulação imobiliária).
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Verso e Prosa em Diálogo: A antologia equilibra contos realistas e poesias confessionais. Há uma forte tendência à poesia de tempos verbais (saudosismo) e ao conto psicológico.
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Arte Visual Integrada: A capa é do artista visual Mulambö, que retrata a Igreja Matriz Nossa Senhora de Nazaré. Essa ponte entre literatura e artes plásticas é uma marca da nova produção independente, que entende o livro como objeto de arte .
O prefácio é de Camilo Mota, psicanalista e membro da Academia Brasileira de Poesia, que legitima tecnicamente a produção dos "amadores" (no sentido etimológico de "aqueles que amam") do grupo .
Gêneros em Ascensão
Enquanto a tradição parnasiana puxava para a poesia formal, a nova cena diversifica o catálogo:
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Fantasia Épica: Liderada pela jovem Sophia Duarte, mostra que os jovens saquarenses estão conectados com as tendências globais da literatura young adult .
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Literatura Infantil com Conteúdo Social: As obras de Miguel e Alícia indicam um mercado crescente para livros que abordam TDAH, bullying e empoderamento infantil sob a ótica local.
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Conto Regionalista Urbano: Autores como Euclides José e Vitor Motta (presentes na antologia) exploram o cotidiano das praias, das ruas do centro e das comunidades pesqueiras, resgatando a "alma" da cidade em prosa.
4. O Palco dos Grandes: A FLIS e a Vitrine Cultural
Nenhuma análise estaria completa sem mencionar o catalisador de tudo isso: a FLIS (Feira Literária Internacional de Saquarema) .
Diferente de muitas feiras que se limitam à venda de livros, a FLIS tem um papel de formação de leitores. O evento reúne nomes de peso nacional e internacional, como Itamar Vieira Junior, Conceição Evaristo e o angolano José Eduardo Agualusa . Em 2025, a feira trouxe o tema "Ler é abrir-se para o mundo", alinhado à discussão ambiental da COP30, mostrando que Saquarema pensa globalmente .
Para o escritor local, a FLIS é o "encerramento do ciclo". É lá que a Confraria lança seus livros, que os alunos se encontram com seus ídolos e que a população comum tem acesso à cultura de ponta sem pagar nada. A existência de um evento desse porte em uma cidade de médio porte é o principal vetor para que a cena independente não morra na praia.
Referências
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[1] Sopa Cultural. Confraria dos Escritores Independentes de Saquarema inicia suas atividades. Disponível em: https://sopacultural.com/confraria-dos-escritores-independentes-de-saquarema-inicia-suas-atividades/
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[2] Revista Aldeia Magazine. "Saquarema em Verso e Prosa", 1º livro da Confraria de Escritores Independentes de Saquarema (Facebook). Disponível em: https://www.facebook.com/RevistaAldeiaMagazine/posts
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[3] O Dia. 'Escola que Lê': Prefeitura de Saquarema segue com a distribuição de sacolas literárias. Disponível em: https://odia.ig.com.br/saquarema/2026/03/7229750-escola-que-le-prefeitura-de-saquarema-segue-com-a-distribuicao-de-sacolas-literarias.html
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[5] G1. FLIS reúne autores consagrados em Saquarema com foco em meio ambiente e saberes ancestrais. Disponível em: https://g1.globo.com/rj/regiao-dos-lagos/noticia/2025/11/11/flis-reune-autores-consagrados-em-saquarema-com-foco-em-meio-ambiente-e-saberes-ancestrais.ghtml
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[8] Boletim RJ. Saquarema: pequenos escritores dão aula de talento e inspiração. Disponível em: https://boletimrj.com.br/saquarema-pequenos-escritores-dao-aula-de-talento-e-inspiracao/
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👥 Pesquisa por Guilherme Felipe, Curadoria Sílvio Lôbo















