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011. Serra da Mantiqueira e volta para o Refúgio, 09 de junho de 1985
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O dia iniciava à 00h00, mas o Sol nasceu às 6h36min, e o Pôr do Sol (local) deveria acontecer às 17h23min. Às 18h00 deste dia, a Lua estava Minguante Convexa, a 55%.

Era meia-noite. Sabemos, até aqui, que três dos escoteiros (Ramatis, Osvaldo e Ricardo), com seu chefe Juan, caminhavam buscando retornar para a Base dos Marins, casa do Seu Afonso, mas não iam bem. Seguiam por outra fazenda, ouviam barulho de água e caminhavam incessantemente como estratégia para sobreviver ao frio, que era um dos mais intensos do século.

A direção tomada foi rumo a oeste.

Sabemos que eles chegaram no meio da madrugada na casa do Seu Filinho, que os recebeu com a arma nas mãos, com medo, pensando ser ladrões.

  

 

voltadosescoteiros

 

O traçado pontilhado amarelo é o caminho que "acreditamos" ter sido usado pelos escoteiros e pelo chefe Juan para retornar ao Refúgio dos Marins, mas que os levou até a casa do Seu Filinho. Esse trajeto considera que eles não passaram no grande obstáculo em vermelho.

Ora, existe um mito de que o chefe e três dos escoteiros se perderam na volta para a Base dos Marins por pegar o caminho errado, mas que Marco Aurélio pegou o caminho certo!

Será que Marco Aurélio pegou o caminho certo mesmo?

Poderíamos pensar em um final trágico e muito mais simples para esta história: Marco Aurélio também estava perdido!

Ele seguiu da forma que se espera daqueles que querem sair da montanha pelo caminho aparentemente "fácil": desceu! E, infelizmente, entrou no Cânion dos Marins (círculo em vermelho na imagem a seguir).

 

canions

Para quem está voltando da Cruz de Ferro ou do Elevador, o lado esquerdo tem o grande Cânion dos Marins, local que já vitimou montanhistas experientes. Mais recentemente:

O corpo do francês Eric Welterlin, de 54 anos, que desapareceu durante um treino de corrida no Pico dos Marins, em Piquete (SP), foi encontrado durante a manhã deste sábado (5). O esportista desapareceu no dia 16 de abril de 2018  (reportagem G1, clique no link)

É ingenuidade acreditar que as equipes de busca percorreram todo o Cânion à procura do jovem. Sendo equivocado afirmar que as buscas foram superficiais.

As buscas por qualquer sobrevivente têm foco em locais onde a pessoa possa sobreviver! Assim, é natural que as buscas prestigiem lugares que alguém possa estar abrigado, em detrimento de locais que seriam evitados por alguém cauteloso e que esteja plenamente a par de sua situação, e de onde está.

Num primeiro momento, é natural que o foco tenha sido nos trechos de acesso mais fácil. Pouco se tem registro sobre as fendas que narram ter até mais de 80 metros.

O Cânion dos Marins já é extremamente perigoso!

Em nossa narrativa, estamos nas primeiras horas de um dia que terá intensas chuvas. Um corpo, de menos de cinquenta quilos, poderia ser carregado facilmente por enxurradas ou mesmo enterrado por areia em uma fenda.

Infelizmente, e é bastante triste pensar nisso, Marco Aurélio estava perdido e era desafiado pelo frio, pelo medo e por sua deficiência visual.

Tenho certeza que Marco Aurélio foi um herói. Lutou bravamente e caminhou por muitos quilômetros em busca da sobrevivência.

Nunca saberemos o que aconteceu realmente, mas podemos facilmente presumir que o jovem percorreu muito mais do que a área de busca.

Pode ter avançado até o Cânion e até um pouco mais.

Acredito ser errada a afirmação de que ninguém tenha visto Marco Aurélio. Mesmo em 1985, a Mantiqueira e a região do Pico dos Marins eram bem frequentadas. Muitos fizeram o convite de ir junto com o chefe e os escoteiros. Mas estávamos saindo de uma ditadura, e ninguém queria ter que prestar depoimento para a polícia.

chegand no filinho

Por volta das 3h00 (madrugada), SEM Marco Aurélio.

Juan e os escoteiros chegam à fazenda do Seu Filinho. Este recebeu os escoteiros e o chefe com arma nas mãos, pensando ser assaltantes.

Juan conversou com o Seu Filinho, que disse que eles estavam a 6 km da base dos Marins, já no lado mineiro da montanha.

O chefe e os três escoteiros, todos verdadeiros sobreviventes, chegaram à Base dos Marins, pela estrada, por volta das 5h00 da manhã.

De volta ao Refúgio dos Marins

Depois de quase 20 horas caminhando entre pedras e mata, o grupo chegou à Base dos Marins e encontrou a barraca quase derrubada e revirada!

Os escoteiros comem leite condensado de uma lata e dormem, sucumbindo ao extremo cansaço.

Às 6h30min

Juan sai sozinho para procurar por Marco Aurélio.

Todos que ouvem sobre o desaparecimento do escoteiro pensam, em um primeiro momento, que o Chefe Juan voltou sozinho para procurar Marco Aurélio, pois queria "resolver" o problemão resultante de sua série de ações absurdas e irresponsáveis.

Encontrar Marco Aurélio depois de estar perdido com os escoteiros que devia cuidar seria uma forma de abafar a história e tornar tudo uma grande história.

Ocorre que as primeiras horas de alguém perdido em uma floresta são críticas. A cada hora que passa, a área de busca aumenta 3 km em cada direção. Outro ponto é que, com uma noite de sensação térmica de menos de 0 °C, o jovem poderia estar enfrentando hipotermia.

Fato é que, mais uma vez, por ter colocado o ego de sua juventude à frente da razão, o jovem chefe Juan se tornaria o centro de todas as desconfianças, o suspeito número um, e por causa disso pagaria um preço muito caro.

Juan conta que das 6h30min até as 10h30min refez o caminho buscando Marco Aurélio sozinho.

Ora! Em que momento, entre as 5h30min e as 6h30min, Juan aprendeu o caminho?!

Juan, que esteve completamente perdido nas últimas horas, de repente se tornou um entendido e passou a procurar por Marco.

Podemos concluir que Juan ficou dando voltas por ali, soprando com força o apito. Pois, se ele tivesse capacidade de explorar o local, não teria passado pelo que passou.

Às 10h30min chega no Refúgio o Chefe Paulinho. Como combinado, ele veio de Kombi buscar os escoteiros para levá-los de volta para Piquete-SP, para que pudessem retornar para casa. Era o combinado.

Paulinho estranhou os escoteiros na barraca, mas entendeu depois que era por causa da jornada de quase 24h.

Nessa época, não havia celular, e no Refúgio não tinha telefone. Então, sabendo do desaparecimento do escoteiro, Paulinho voltou até a barreira, contatou o chefe Gugu, do grupo Puris de Piquete-SP, e com o reforço de mais cinco homens, passaram a procurar Marco Aurélio.

Infelizmente, mais uma vez, voltaram à mata para realizar a busca, mas não avisaram a polícia ou bombeiros!

O dia prometia uma tempestade! Inclusive com muita neblina – lembra o chefe Paulinho [11].

Onde esteve Marco Aurélio enquanto isso? Marco Aurélio esteve onde das 14h40min de 8 de junho de 1985 até as 5h00 do dia 9?

Hipóteses tratadas nas redes sociais e YouTube dão conta de que:

  • Marco Aurélio teria chegado em uma fazenda de madrugada, pedindo ajuda, como fizeram o chefe Juan e os escoteiros na casa do Seu Filinho, e que, da mesma forma que esse morador, o dono da fazenda também pensou ser um ladrão. Este, infelizmente, atirou em Marco Aurélio e depois ocultou o corpo.

  • Nessa mesma linha, estão as suposições de que teria sido um morador da segunda casa na Base dos Marins que confundiu Marco Aurélio com um assaltante e atirou nele. Muitos relatos na Internet defendem a história de que a independência dos escoteiros e de Juan por não usarem os "serviços", como guia, dos moradores da Base Marins, teria causado descontentamento. Isso porque os moradores do local tinham nos serviços de guia e na venda de alguns produtos e locação de local e banheiro uma das poucas fontes de renda. Possivelmente, essa história é apenas um mito que ganhou força, já que os antigos moradores morreram e não podem mais se defender.

  • Que, desorientado, Marco Aurélio entrou em um Cânion, se machucou, ficando incapaz de continuar sua jornada e retornar para a Base dos Marins, aguardando socorro onde morreria devido à hipotermia.

  • Outras suposições são que Marco Aurélio pode ter sido visto por pessoas que não quiseram falar, pois, na falta de álibi para estarem ali, poderiam ser apontadas como suspeitas.

Estávamos saindo da ditadura, e um interrogatório nesses dias era algo muito ruim. Não sendo poucos os casos de falsas confissões por pessoas que não aguentavam a pressão e a tortura.

Conheço muita gente que nasceu depois do desaparecimento do escoteiro, mas facilmente confessariam culpa na tragédia se fossem torturadas por 30 segundos.

Fim de tarde: interrupção das buscas, às 16h30min.

As condições climáticas tornaram impossível continuar as buscas.

É importante ressaltar esse momento: Marco Aurélio poderia ter sobrevivido à primeira noite, mas e a tempestade que impediu até os adultos de realizarem a busca?

Às 17h15min, a polícia é avisada.

Por ser muito longo, este dia será dividido. O artigo seguinte irá tratar do ocorrido a partir das 17h16min do dia 9 de junho de 1985, incluindo o estranho caso do grito na mata e a luz azul.

Em breve, continua em um próximo artigo...

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