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Coreia do Norte (Seleção)
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No vasto e complexo tabuleiro do futebol internacional, poucas entidades despertam tanta curiosidade, mística e incompreensão quanto a seleção nacional de futebol da Coreia do Norte. Conhecida pelos seus torcedores e pela propaganda estatal como o "Chollima" — o mítico cavalo alado da mitologia coreana que não pode ser montado por homem nenhum e corre mil milhas por dia —, a equipe nacional da República Popular Democrática da Coreia (RPDC) habita uma dimensão única no esporte. Não se trata apenas de um time de futebol; trata-se de uma extensão do próprio Estado, uma ferramenta de projeção geopolítica e um espelho das flutuações diplomáticas de um dos regimes mais fechados do planeta. Ao longo das décadas, o futebol norte-coreano alternou entre o brilhantismo histórico, como a lendária campanha na Copa do Mundo de 1966, e períodos de completo isolamento autoimposto, onde a equipe simplesmente desaparecia do mapa competitivo. Analisar a Coreia do Norte sob a ótica do jornalismo esportivo sênior exige despir-se de caricaturas fáceis e mergulhar em uma complexa teia que une a ideologia Juche, a geopolítica da Guerra Fria, as sanções econômicas da ONU e uma resiliência tática surpreendente que, mesmo diante das maiores adversidades estruturais, insiste em manter o país competitivo no cenário asiático.

1. Origens e Formação da Identidade Nacional

Para compreender a gênese do futebol na Coreia do Norte, é preciso retroceder ao doloroso processo de divisão da península coreana após a Segunda Guerra Mundial e a subsequente Guerra da Coreia (1950-1953). Sob a liderança do "Presidente Eterno" Kim Il-sung, o norte da península abraçou o socialismo de estilo soviético, mas rapidamente desenvolveu sua própria vertente ideológica: o Juche, que preconiza a autossuficiência política, econômica e militar. O esporte, desde os primeiros anos da república, foi catalogado não como mero entretenimento burguês, mas como um dever patriótico fundamental para a defesa nacional e para a demonstração da superioridade do sistema socialista.

A Reconstrução Pós-Guerra e a Fundação do Futebol Estatal

Após a devastação da Guerra da Coreia, que deixou Pyongyang praticamente em ruínas, o regime identificou na cultura física uma ferramenta vital para a reconstrução nacional e a coesão social. O futebol, que já era imensamente popular na península desde o período da ocupação japonesa, foi reorganizado sob a tutela direta do Estado. Em 1945, foi fundada a Associação de Futebol da RPDC, mas foi a partir do final da década de 1950 que o esporte recebeu investimentos massivos para a criação de clubes vinculados a ministérios e forças militares.

Dessa estrutura estatal nasceram os principais clubes do país, que servem até hoje como base para a seleção nacional. O mais proeminente deles é o April 25 Sports Club (25 de Abril), pertencente ao Exército Popular da Coreia. O nome faz referência à data de fundação das forças armadas do país. Outro pilar é o Kigwancha Sports Club, ligado à companhia ferroviária estatal, e o Amrokgang Sports Club, gerido pelo Ministério do Povo de Segurança Pública (a força policial). Essa ligação umbilical com as forças de segurança e defesa moldou a mentalidade dos atletas norte-coreanos: o jogador de futebol é, antes de tudo, um soldado a serviço da pátria.

O Juche no Campo de Jogo

A aplicação da filosofia Juche ao futebol traduziu-se em um estilo de jogo caracterizado por uma disciplina tática férrea, preparação física extrema e uma dedicação coletiva que beirava o sacrifício pessoal. Sob a ótica do regime, a falta de recursos tecnológicos ou de intercâmbio com as grandes potências do futebol ocidental deveria ser compensada por uma força de vontade inabalável e por um condicionamento físico superior. Os treinamentos da seleção nacional, muitas vezes realizados em segredo nas montanhas de Myohyang, assemelhavam-se a exercícios militares, com foco em velocidade, resistência e repetição exaustiva de movimentos táticos de transição defensiva e ofensiva.

Esta abordagem militarizada e coletivista eliminou a figura do "craque individualista". Na Coreia do Norte, o brilho individual sempre foi desencorajado em favor da engrenagem coletiva. O jogador que se destacava era aquele que melhor servia ao plano tático do treinador, que por sua vez respondia diretamente aos comitês esportivos do Partido dos Trabalhadores da Coreia. Foi essa fundação ideológica e física que preparou o terreno para a maior façanha da história do futebol asiático no século XX.

2. Era de Ouro, Grandes Campanhas e Ídolos Eternos

A trajetória da Coreia do Norte no futebol mundial possui dois marcos fundamentais, separados por mais de quatro décadas de relativo isolamento: a epopeia de 1966 na Inglaterra e o retorno dramático em 2010 na África do Sul. Ambos os momentos revelam como o país lida com o palco internacional e como seus heróis esportivos são elevados ao status de lendas nacionais.

O Milagre de Middlesbrough em 1966

A participação da Coreia do Norte na Copa do Mundo de 1966 é uma das histórias mais ricas e românticas do futebol. A classificação em si já foi cercada de drama político. Após a recusa de vários países africanos e asiáticos em participar das eliminatórias devido a decisões administrativas da FIFA, a Coreia do Norte enfrentou a Austrália em duas partidas disputadas em solo neutro, no Camboja, sob o patrocínio do príncipe Norodom Sihanouk. Com duas vitórias categóricas (6 a 1 e 3 a 1), os norte-coreanos garantiram a vaga na Inglaterra.

Ao chegarem em solo britânico, a presença da Coreia do Norte gerou imensa apreensão diplomática. O governo britânico, alinhado aos Estados Unidos e à Coreia do Sul, inicialmente recusou-se a hastear a bandeira norte-coreana ou a tocar o hino nacional do país. Após intensas negociações diplomáticas, um acordo foi alcançado para que as formalidades fossem reduzidas. Sediados na cidade industrial de Middlesbrough, os jogadores norte-coreanos conquistaram rapidamente a simpatia da classe trabalhadora local, que viu naqueles atletas de baixa estatura, mas de esforço hercúleo, um reflexo de sua própria identidade operária.

Após uma derrota previsível para a União Soviética por 3 a 0 e um empate suado em 1 a 1 contra o Chile (com gol de Pak Seung-zin), a Coreia do Norte enfrentou a poderosa Itália no Ayresome Park. O que se seguiu foi uma das maiores zebras da história das Copas. Aos 42 minutos do primeiro tempo, após uma rebatida da defesa italiana, o meia-atacante Pak Do-ik desferiu um chute cruzado e rasteiro que bateu o goleiro Albertosi. O placar de 1 a 0 eliminou a bicampeã mundial Itália e levou a Coreia do Norte às quartas de final.

Nas quartas de final, em Goodison Park, os norte-coreanos assombraram o mundo ao abrir uma vantagem de 3 a 0 contra o Portugal de Eusébio em apenas 25 minutos de jogo. Contudo, a falta de experiência internacional e o desgaste físico daquela equipe puramente amadora cobraram o seu preço. Eusébio, em uma atuação monumental, marcou quatro gols, e Portugal acabou vencendo por 5 a 3. Apesar da eliminação, os "Chollima" retornaram a Pyongyang como heróis nacionais. Pak Do-ik, que mais tarde tornou-se instrutor de educação física e técnico, foi condecorado e sua figura tornou-se sinônimo do triunfo do homem comum contra as potências imperialistas.

O Retorno em 2010: As Lágrimas de Jong Tae-se

Após quarenta e quatro anos de ausência, a Coreia do Norte chocou o continente asiático ao garantir a classificação para a Copa do Mundo de 2010. Sob o comando do técnico Kim Jong-hun, a equipe baseou sua campanha em uma defesa quase intransponível, liderada pelo goleiro Ri Myong-guk e pelo zagueiro e capitão Hong Yong-jo, que jogava no Rostov, da Rússia.

O momento mais marcante dessa campanha ocorreu antes mesmo do apito inicial do primeiro jogo contra o Brasil, em Joanesburgo. Durante a execução do hino nacional norte-coreano, o atacante Jong Tae-se chorou copiosamente. Nascido no Japão e pertencente à comunidade "Zainichi" (coreanos residentes no Japão associados à organização pró-Pyongyang Chongryon), Jong Tae-se escolheu defender a Coreia do Norte por convicção identitária. Suas lágrimas simbolizaram a carga emocional e política que cada atleta carregava ao vestir aquela camisa.

Em campo, a Coreia do Norte assustou o Brasil de Dunga. Com uma linha defensiva de cinco jogadores extremamente compacta, os norte-coreanos limitaram as ações brasileiras no primeiro tempo. Embora o Brasil tenha vencido por 2 a 1 (gols de Maicon e Elano), o gol norte-coreano marcado por Ji Yun-nam no final da partida foi celebrado como uma vitória moral em Pyongyang. No entanto, a ilusão de competitividade ruiu nos jogos seguintes. Diante de Portugal, sob uma chuva torrencial na Cidade do Cabo, a equipe tentou jogar de forma mais ofensiva e foi impiedosamente goleada por 7 a 0. A campanha encerrou-se com uma derrota por 3 a 0 para a Costa do Marfim, evidenciando o abismo tático e físico que ainda separava o país do restante do mundo.

3. Rivalidades, Crises e Bastidores do Poder

No contexto do futebol norte-coreano, as quatro linhas são indissociáveis da geopolítica. Cada partida contra determinados adversários carrega uma carga de tensão que transcende o esporte, transformando os estádios em verdadeiros palcos de guerra diplomática.

A Guerra Fria no Gramado: O Derby da Península

A maior e mais visceral rivalidade da Coreia do Norte é, sem surpresas, com a Coreia do Sul. O chamado "Derby da Península" é um dos confrontos mais tensos do futebol mundial. Durante décadas, os dois países sequer se enfrentavam devido à recusa mútua de reconhecimento de soberania. Quando os confrontos tornaram-se inevitáveis pelas competições da Confederação Asiática de Futebol (AFC) e da FIFA, a atmosfera de tensão atingiu níveis extraordinários.

Historicamente, a Coreia do Norte sempre se recusou a hastear a bandeira sul-coreana ou a tocar o hino nacional do vizinho do sul em Pyongyang. Isso forçou a FIFA a transferir diversos jogos de mando norte-coreano para cidades neutras na China, como Xangai, durante as eliminatórias para a Copa de 2010. O ápice dessa tensão ocorreu em outubro de 2019, durante as eliminatórias para a Copa de 2022. As duas seleções se enfrentaram no Estádio Kim Il-sung, em Pyongyang, em uma partida que entrou para a história como o "jogo fantasma".

Por decisão do regime norte-coreano, o jogo foi disputado com portões completamente fechados, sem transmissão de televisão ao vivo e sem a presença de jornalistas estrangeiros. Os poucos relatos do empate em 0 a 0 vieram de atualizações esparsas da FIFA e de relatos dos jogadores sul-coreanos pós-jogo. O craque do Tottenham, Son Heung-min, descreveu a partida como extremamente física e violenta, afirmando que "foi um milagre ninguém ter saído gravemente lesionado". A recusa da Coreia do Norte em fornecer sinal de transmissão ou permitir a entrada de torcedores sul-coreanos demonstrou como o futebol é utilizado como ferramenta de retaliação política.

A Batalha de Pyongyang em 2005 e as Crises Administrativas

Embora o regime controle rigidamente o comportamento do público, episódios de violência extrema já ocorreram em Pyongyang. O caso mais emblemático aconteceu em março de 2005, durante uma partida contra o Irã pelas eliminatórias da Copa de 2006. Inconformados com a atuação do árbitro sírio Mohamed Kousa, que não marcou um pênalti a favor da Coreia do Norte e expulsou um jogador local no final da partida (vencida pelo Irã por 2 a 0), milhares de torcedores norte-coreanos iniciaram um quebra-quebra generalizado.

Pedras, garrafas e cadeiras foram arremessadas no gramado. A seleção iraniana e a equipe de arbitragem ficaram sitiadas no vestiário do Estádio Kim Il-sung por horas, enquanto o exército e a polícia tentavam conter a multidão do lado de fora. Como punição, a FIFA multou a federação norte-coreana e ordenou que o jogo seguinte, contra o Japão — outra rivalidade histórica marcada pelo ressentimento da colonização japonesa —, fosse disputado com portões fechados em Bangcoc, na Tailândia. Este incidente revelou que, sob a superfície de controle absoluto, reside uma paixão nacional altamente inflamável.

O Impacto do Isolamento e a Pandemia de COVID-19

A maior crise recente do futebol norte-coreano não ocorreu dentro de campo, mas sim devido à política de isolamento radical adotada pelo país durante a pandemia de COVID-19. Temendo o colapso de seu sistema de saúde, o regime de Kim Jong-un fechou hermeticamente as fronteiras do país em 2020. Como consequência direta, a seleção nacional retirou-se no meio das eliminatórias para a Copa do Mundo de 2022 e da Copa da Ásia de 2023.

Esse autoisolamento de quase quatro anos destruiu o ritmo competitivo de toda uma geração de atletas. Sem disputar partidas internacionais, sem intercâmbio e com o campeonato nacional ocorrendo em total segredo, o futebol da Coreia do Norte despencou no ranking da FIFA e perdeu espaço no cenário asiático. O retorno às competições só ocorreu no final de 2023, sob imensa desconfiança e com uma equipe tecnicamente defasada em relação aos seus concorrentes regionais.

4. O Momento Atual: Tática, Geração e Desafios

O futebol moderno exige dinamismo, análise de dados, intercâmbio tático e alta tecnologia de recuperação física. Para a Coreia do Norte, operar neste ambiente hiperprofissionalizado sendo um Estado sob severas sanções internacionais é um desafio hercúleo. Ainda assim, a equipe demonstra uma resiliência tática que surpreende analistas internacionais.

O Modelo Tático: O Retorno ao Pragmatismo

Taticamente, a seleção da Coreia do Norte atual, sob o comando de técnicos locais formados sob a cartilha do comitê de esportes, mantém a essência de sua identidade histórica: um bloco defensivo baixo, extremamente compacto, operando geralmente em variações de 5-4-1 ou 4-5-1. A prioridade absoluta é negar espaço nas costas da defesa e congestionar a área penal.

Diferente de equipes ocidentais que buscam a posse de bola e a construção paciente desde o campo de defesa, os norte-coreanos utilizam uma transição ofensiva direta e vertical. Ao recuperar a bola, a instrução é acionar imediatamente os pontas rápidos ou o centroavante de referência por meio de lançamentos longos. É um futebol de desgaste físico para o adversário, que se vê obrigado a propor o jogo contra uma parede humana disciplinada, correndo o risco constante de sofrer contra-ataques fulminantes.

A Estrela Solitária: O Caso Han Kwang-song

Para entender o momento atual da seleção, é obrigatório analisar a trajetória de Han Kwang-song, o jogador mais talentoso que o país produziu no século XXI. Formado na ISM Academy na Itália através de um projeto de intercâmbio estatal, Han fez história ao se tornar o primeiro norte-coreano a marcar um gol na Série A italiana, vestindo a camisa do Cagliari em 2017. Seu talento chamou a atenção da Juventus, que o contratou em 2019 para sua equipe sub-23, antes de transferi-lo para o Al-Duhail, do Catar, por uma cifra milionária.

No entanto, a carreira de Han foi abruptamente interrompida pela geopolítica. Em consonância com a Resolução 2397 do Conselho de Segurança da ONU, que determinou a repatriação de todos os cidadãos norte-coreanos que trabalhavam no exterior para evitar que seus salários fossem revertidos para o programa nuclear de Pyongyang, Han teve seu contrato rescindido no Catar e foi impedido de atuar profissionalmente fora de seu país. Ele desapareceu dos holofotes por quase três anos, levantando rumores sobre seu paradeiro.

O mistério foi desfeito no final de 2023, quando Han Kwang-song reapareceu vestindo a camisa 10 da seleção nacional nas eliminatórias para a Copa do Mundo de 2026. Apesar do longo período de inatividade forçada em alto nível, Han demonstrou que ainda possui uma técnica refinada, visão de jogo e capacidade de finalização muito superiores à média de seus companheiros. Ele é o ponto focal criativo de uma equipe que carece de individualidades de elite.

A Campanha para 2026 e o Drama dos Mandos de Campo

A campanha das eliminatórias para a Copa do Mundo de 2026 ilustra perfeitamente o caos administrativo e logístico que a seleção enfrenta. Em março de 2024, a Coreia do Norte deveria receber a seleção do Japão em Pyongyang. Poucos dias antes da partida, as autoridades norte-coreanas cancelaram unilateralmente o jogo em seu território, alegando temores sobre a propagação de uma infecção bacteriana originada no Japão. Diante da recusa de Pyongyang em indicar um local neutro em tempo hábil, a FIFA declarou a vitória do Japão por W.O. (3 a 0).

Esse episódio forçou a federação norte-coreana a mandar seus jogos subsequentes como mandante em Vientiane, capital do Laos. Jogar longe de seus torcedores e do intimidador Estádio Kim Il-sung enfraquece consideravelmente a equipe, que depende da atmosfera local para pressionar os adversários. Mesmo assim, a Coreia do Norte conseguiu avançar para a terceira fase das eliminatórias asiáticas, mantendo vivo o sonho de se classificar para o torneio expandido de 48 seleções na América do Norte.

5. Formação de Talentos, Estrutura e Futuro

O futuro do futebol na Coreia do Norte depende diretamente de sua capacidade de renovação interna em um cenário de isolamento econômico. Sem poder contar com a exportação de jogadores devido às sanções internacionais, o país foi obrigado a repensar sua estrutura de formação doméstica.

A Escola Internacional de Futebol de Pyongyang

O grande pilar do projeto de modernização do futebol norte-coreano é a Escola Internacional de Futebol de Pyongyang, inaugurada em 2013 por ordem direta do líder Kim Jong-un, um conhecido entusiasta dos esportes. Localizada na bucólica ilha de Rungra, a instituição foi projetada para centralizar e lapidar os maiores talentos infanto-juvenis do país.

A escola abriga centenas de alunos, de ambos os sexos, com idades entre 9 e 17 anos, selecionados em todas as províncias do país através de uma rígida peneira física e técnica. As instalações contam com campos de grama sintética e natural, dormitórios modernos, centros de análise de vídeo e salas de aula tradicionais. O currículo combina o treinamento intensivo de futebol com a educação regular e, crucialmente, com a doutrinação ideológica do partido.

Diferente do passado, onde os treinadores norte-coreanos dependiam exclusivamente de manuais antigos de origem soviética, a escola buscou, nos seus primeiros anos, importar metodologias europeias. Instrutores estrangeiros foram contratados para ministrar cursos a treinadores locais, e os melhores alunos realizavam viagens de intercâmbio para a Europa (principalmente Itália e Espanha). No entanto, com o endurecimento das sanções e o fechamento de fronteiras, esse intercâmbio foi interrompido, isolando novamente a escola em sua própria bolha metodológica.

O Impacto Devastador das Sanções da ONU

O futebol norte-coreano enfrenta um teto de desenvolvimento intransponível imposto pelas sanções econômicas da ONU. A proibição de transferências financeiras internacionais impede que os clubes locais comprem equipamentos modernos, contratem profissionais estrangeiros de ponta ou participem de torneios de intercâmbio financeiramente vantajosos.

Além disso, o bloqueio à exportação de atletas sufoca o desenvolvimento técnico dos jogadores. No futebol moderno, o crescimento de uma seleção nacional está diretamente ligado à experiência de seus atletas nas principais ligas do mundo. Jogadores como Pak Kwang-ryong (que teve passagem destacada pelo Basel, da Suíça) e o próprio Han Kwang-song provaram que o atleta norte-coreano possui valia técnica para o mercado europeu. Contudo, enquanto as restrições geopolíticas vigorarem, os talentos formados em Pyongyang estarão condenados a disputar apenas a liga local, que carece de competitividade, ritmo e visibilidade.

Perspectivas Futuras: O Caminho para 2026 e Além

A expansão da Copa do Mundo para 48 seleções a partir de 2026 abriu uma janela de oportunidade sem precedentes para as nações de segundo escalão da Ásia. Com o continente recebendo 8 vagas diretas mais uma para a repescagem intercontinental, a Coreia do Norte surge como uma candidata viável a retornar ao maior palco do esporte mundial.

Para que esse objetivo seja alcançado, a federação norte-coreana precisará demonstrar uma flexibilidade diplomática que raramente exibiu no passado recente. Será necessário garantir a regularidade de seus mandos de campo, evitar punições administrativas por cancelamentos intempestivos e permitir que a comissão técnica trabalhe com o mínimo de interferência política externa — algo extremamente difícil sob a estrutura de poder vigente.

A seleção da Coreia do Norte continua sendo um dos maiores enigmas do esporte contemporâneo. Entre a rigidez do Estado e a paixão genuína de seus atletas, o "Chollima" segue seu galope solitário, desafiando as probabilidades e provando que, mesmo no mais profundo isolamento, a bola teima em rolar com a mesma paixão e intensidade que em qualquer outro canto do planeta.

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