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Lançado em 1990, Dança com Lobos (Dances with Wolves) não é apenas um marco do cinema épico, mas a obra-prima que revitalizou o gênero Western em Hollywood e consagrou Kevin Costner como diretor e astro de primeira grandeza. Com três horas de duração, o longa-metragem desafiou o ceticismo da indústria da época ao retratar de forma humanista, lírica e sem precedentes a cultura dos povos originários Lakota Sioux, conquistando sete estatuetas do Oscar — incluindo Melhor Filme e Melhor Diretor — e consolidando-se como um fenômeno cultural e de bilheteria global.

Análise e Enredo

Dança com Lobos é uma jornada de desconstrução de identidade e renascimento espiritual ambientada no crepúsculo da fronteira americana. A narrativa acompanha o Tenente John J. Dunbar (Kevin Costner), um herói acidental da Guerra Civil Americana que, após sobreviver a uma tentativa quase suicida de bravura no campo de batalha, recebe o direito de escolher seu próximo posto de serviço. Sedento por contemplar a mística "fronteira selvagem" antes que ela desapareça sob a marcha implacável do progresso colonialista, Dunbar escolhe o isolado Fort Sedgwick, nos confins do território de Dakota.

Ao chegar ao forte abandonado, Dunbar depara-se com a solidão absoluta. A imensidão das planícies americanas torna-se sua única companhia, dividida apenas com um lobo de patas brancas que ele batiza de "Duas Meias" (Two Socks) e seu fiel cavalo Cisco. No entanto, a calmaria é interrompida pela vizinhança da tribo Lakota Sioux. O primeiro contato é marcado pela desconfiança mútua e pelo choque cultural, mas a curiosidade intelectual e a necessidade mútua de sobrevivência começam a traçar pontes invisíveis entre os dois mundos.

Dunbar passa a se comunicar de forma rudimentar com o homem de medicina da tribo, Pássaro Esperneador (Graham Greene), e com o feroz guerreiro Vento em Seu Cabelo (Rodney A. Grant). A comunicação ganha profundidade graças a De Pé com o Punho Fechado (Mary McDonnell), uma mulher branca que foi adotada pela tribo ainda criança, após sua família biológica ser massacrada por uma tribo rival, e que atua como tradutora oficial. À medida que Dunbar aprende a língua, os costumes e a cosmovisão Lakota, ele percebe a falsidade dos discursos oficiais que pintavam os nativos como "selvagens sem alma".

O ponto de virada definitivo ocorre durante a grande caçada aos bisontes. Dunbar não apenas avista a manada, mas salva um jovem guerreiro e luta lado a lado com os Sioux. Ele é gradualmente assimilado pela comunidade, recebendo o nome definitivo de "Dança com Lobos" após ser visto brincando de forma descontraída com o lobo Duas Meias nas pradarias. Ao longo das estações, Dunbar abandona completamente suas vestimentas militares e abraça a indumentária, a rotina e o coração do povo Lakota, culminando em seu casamento com De Pé com o Punho Fechado.

Entretanto, a tragédia é iminente. O avanço do exército dos Estados Unidos alcança o território Sioux. Ao retornar ao Fort Sedgwick para resgatar seu diário pessoal — um registro que provaria a existência pacífica e digna dos nativos —, Dunbar é capturado por soldados da União. Visto pelos seus antigos compatriotas como um traidor abominável, ele é brutalmente espancado e mantido em cativeiro. O homem que antes vestia o uniforme azul agora é tratado como um animal exótico e perigoso.

O Desfecho: Significados Ocultos e a Tragédia da Inevitabilidade

O terço final do filme é uma descida dolorosa à realidade histórica. Dunbar é resgatado de forma espetacular em uma emboscada liderada por Vento em Seu Cabelo e outros jovens guerreiros Sioux. Durante o resgate, no entanto, vários soldados americanos são mortos. É neste ponto que a maturidade dramática do roteiro de Michael Blake se sobressai: Dunbar compreende que sua permanência entre os Lakota agora representa uma sentença de morte para toda a tribo. Para o exército dos EUA, ele é um renegado que precisa ser caçado impiedosamente; sua presença trará regimentos inteiros de infantaria e cavalaria ao acampamento Sioux.

O adeus de Dança com Lobos e De Pé com o Punho Fechado à tribo é uma das sequências mais melancólicas do cinema moderno. A partida do casal para as montanhas geladas simboliza o isolamento inevitável daqueles que desafiam as narrativas hegemônicas de sua época. O grito ecoante de Vento em Seu Cabelo no topo do desfiladeiro — "Dança com Lobos! Eu sou seu amigo! Você consegue ver que sou seu amigo para sempre?" — é um clamor de resistência que reverbera pelo vale, um testamento de fraternidade que transcende a barreira da carne e do sangue.

O filme encerra-se com letreiros melancólicos e realistas. Eles nos recordam que, apenas treze anos depois dos eventos retratados, a grande cultura das planícies foi completamente subjugada, os bisontes foram dizimados até quase a extinção e os últimos Sioux livres foram confinados a reservas áridas sob o controle do governo federal. O lobo "Duas Meias", abatido friamente pelos soldados para mero divertimento sádico anteriormente no filme, funciona como uma metáfora pungente da própria fronteira americana e dos povos nativos: uma beleza selvagem, incompreendida e sistematicamente aniquilada pela pretensa "civilização" ocidental.

Elenco e Atuações de Destaque

O elenco de Dança com Lobos é um dos pilares de sua autenticidade e carga emocional:

  • Kevin Costner (John J. Dunbar / Dança com Lobos): Costner entrega uma atuação contida, que se apoia fortemente na expressão corporal e na evolução do olhar de seu personagem. Sua narração em off confere um tom confessional e de diário íntimo, humanizando o processo de transição cultural de Dunbar de soldado cético a membro orgânico da tribo.
  • Graham Greene (Pássaro Esperneador): O ator nativo canadense (da nação Oneida) foi indicado ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante por sua interpretação monumental. Greene confere a Pássaro Esperneador uma dignidade silenciosa, sabedoria espiritual e um senso de humor sutil e caloroso, distanciando-se completamente dos velhos estereótipos do "xamã estóico".
  • Rodney A. Grant (Vento em Seu Cabelo): Com uma presença física imponente e expressividade marcante, Grant personifica o orgulho, a ferocidade militar e a profunda lealdade da juventude guerreira Lakota. A transição de sua atitude em relação a Dunbar — de pura hostilidade para uma amizade inabalável — é um dos arcos mais emocionantes da fita.
  • Mary McDonnell (De Pé com o Punho Fechado): Indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante, McDonnell realiza um trabalho brilhante ao retratar o trauma psicológico de uma mulher dividida entre duas realidades. O modo como ela gradualmente "reaprende" o inglês britânico, tateando as palavras com dificuldade física, confere uma imensa verossimilhança ao seu papel.
  • Floyd Red Crow Westerman (Dez Ursos): O lendário ativista e músico interpreta o ancião chefe da tribo com uma autoridade quase mística. Seu monólogo sobre a efemeridade dos impérios (fazendo um paralelo entre os conquistadores espanhóis do passado e os americanos do presente) é um dos pontos altos do roteiro.

Bastidores e Curiosidades de Produção

A produção de Dança com Lobos foi cercada de ceticismo por parte de Hollywood, que apelidou pejorativamente o projeto de "Kevin's Gate" antes de sua estreia — uma alusão direta ao fiasco financeiro histórico de Heaven's Gate (O Portal do Paraíso, 1980), dirigido por Michael Cimino, que quase faliu a United Artists. Ninguém acreditava que um faroeste de três horas de duração, metade falado em dialeto nativo com legendas em inglês, dirigido por um diretor estreante, pudesse ter qualquer apelo comercial.

Para financiar a produção de US$ 22 milhões (um valor expressivo para a época), Costner teve que investir mais de US$ 3 milhões de seu próprio bolso e recorrer a parceiros de coprodução internacionais. As filmagens ocorreram majoritariamente na bela e inóspita paisagem de Dakota do Sul durante o verão e outono de 1989.

A icônica cena da caça aos bisontes foi um feito logístico sem precedentes. Foram utilizados mais de 3.500 bisontes reais em uma propriedade privada em Dakota do Sul, além de helicópteros, dezenas de caminhonetes, câmeras montadas em jipes e até mesmo bisontes animatrônicos criados por Kevin Yagher para as cenas de impacto direto. Durante as filmagens da perseguição, o dublê de Costner sofreu um acidente grave que quase o paralisou, mas felizmente se recuperou.

Outra grande dificuldade técnica envolveu os lobos que interpretavam "Duas Meias". Os animais, chamados Buck e Teddy, eram extremamente ariscos e difíceis de treinar. Para fazê-los correr ao lado de Costner na famosa cena de brincadeira, a equipe de produção precisava esconder pedaços de carne de porco nas calças e sapatos do ator, o que exigia enorme paciência e coragem por parte do astro.

Controvérsias e Debates Críticos

Apesar de seu sucesso estrondoso, Dança com Lobos não ficou isento de debates e controvérsias ao longo dos anos, especialmente sob a ótica dos estudos culturais e da evolução da representação étnica no cinema.

A Síndrome do "Salvador Branco" (White Savior Complex)

Uma das principais críticas contemporâneas ao filme aponta para a estrutura do "Salvador Branco". Acadêmicos argumentam que a história escolhe focar a redenção espiritual e moral de um homem branco como o eixo central da narrativa, utilizando a tragédia dos povos nativos como mero pano de fundo para o amadurecimento e heroísmo de Dunbar. Críticos sugerem que a cultura Lakota é apresentada de forma excessivamente idealizada e romântica — o mito do "bom selvagem" de Rousseau —, despindo os nativos de contradições puramente humanas para que sirvam como um espelho de virtudes para o protagonista ocidental.

A Polarização Lakota vs. Pawnee

Outra polêmica relevante diz respeito à representação da tribo rival, os Pawnee. Enquanto os Lakota Sioux são pintados de forma profundamente humanista, pacífica, artística e familiar, os Pawnee são retratados de maneira quase caricata como selvagens implacáveis, sádicos e sanguinários, sem qualquer contextualização de sua história ou das pressões coloniais que sofriam. Esta escolha narrativa foi apontada por historiadores como um retrocesso que recicla os piores clichês do faroeste clássico de John Ford, apenas transferindo o papel de vilão de um grupo indígena para outro.

A Questão Linguística

Embora o filme tenha sido amplamente elogiado por utilizar a língua Lakota real na maior parte de seus diálogos, houve controvérsias internas na comunidade nativa. Devido à pressa da produção e à escassez de falantes fluentes disponíveis para treinamento intensivo de todo o elenco, os atores aprenderam uma versão do dialeto que utilizava sufixos de gênero feminino. Como resultado, na versão final, guerreiros durões como Vento em Seu Cabelo falam Lakota de uma forma tradicionalmente associada às mulheres da tribo. No entanto, para a grande maioria do público e dos próprios nativos, o esforço em manter o idioma original superou em muito esses deslizes técnicos de tradução.

Recepção, Impacto Cultural e Legado

Contra todas as previsões sombrias dos analistas de Wall Street e de Hollywood, Dança com Lobos tornou-se um sucesso comercial avassalador. O filme arrecadou impressionantes US$ 184 milhões nos Estados Unidos e mais de US$ 424 milhões globalmente, tornando-se uma das maiores bilheterias de 1990 e provando que o público internacional estava ávido por narrativas maduras, contemplativas e de alta qualidade estética.

No Oscar de 1991, o longa-metragem dominou a noite com 12 indicações e faturou 7 estatuetas, incluindo as principais de Melhor Filme, Melhor Diretor (Kevin Costner) e Melhor Roteiro Adaptado (Michael Blake). Essa consagração gerou debates que duram até hoje na cinefilia mundial, visto que o filme derrotou o clássico absoluto do cinema de gângster de Martin Scorsese, Os Bons Companheiros (Goodfellas), uma decisão que muitos críticos de cinema modernos consideram um dos maiores "erros" históricos da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas.

No entanto, o impacto político e social de Dança com Lobos na época foi inquestionável. O filme alterou profundamente a percepção pública norte-americana sobre a história de formação de sua nação e o genocídio indígena. Em reconhecimento à representação digna e respeitosa de seu povo, a nação Lakota Sioux adotou formalmente Kevin Costner como um membro honorário de sua comunidade em uma cerimônia oficial realizada em 1990.

Três décadas após o seu lançamento, Dança com Lobos permanece como um épico cinematográfico indiscutível. Ele abriu as portas para outras produções de grande orçamento que buscaram retratar culturas marginalizadas com maior respeito histórico e linguístico (como O Último dos Moicanos e até mesmo ficções científicas como Avatar de James Cameron, que segue uma estrutura narrativa quase idêntica). A fita de Costner sobrevive ao tempo não pelas suas polêmicas, mas pela força de suas imagens poéticas, pela beleza comovente da trilha sonora inesquecível de John Barry e por nos lembrar, com melancolia e grandiosidade, da tragédia lírica que foi o nascimento da América moderna.

Fontes Pesquisadas

  • American Film Institute (AFI): afi.com/catalog/dances-with-wolves
  • Box Office Mojo: boxofficemojo.com/title/tt0099348/
  • Internet Movie Database (IMDb): imdb.com/title/tt0099348/
  • Rotten Tomatoes: rottentomatoes.com/m/dances_with_wolves
  • Roger Ebert Archives: rogerebert.com/reviews/dances-with-wolves-1990

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