Este município do Estado do Pará serve de polo para novos escritores do interior, promovendo feiras literárias que conectam a produção acadêmica à tradição das narrativas populares do nordeste paraense.
As palavras que brotam da "Modelo do Norte": a cena literária de Castanhal entre a saudade e a resistência
Introdução
Castanhal, carinhosamente apelidada de "Modelo do Norte" ou "Cidade Morena", pulsa no nordeste paraense como um polo de desenvolvimento que jamais perdeu suas raízes interioranas. Conhecida nacionalmente por sua feira livre — uma das maiores do Pará — e pela tradição religiosa, a cidade guarda nas entrelinhas de suas ruas movimentadas uma cena literária silenciosa, porém resistente.
Enquanto o agronegócio e o comércio dominam a paisagem econômica, a palavra escrita sobrevive em saraus esporádicos, na memória afetiva de seus cronistas e nos versos de poetas que transformam a saudade em arte. Este artigo é uma imersão nesse universo — das raízes fincadas nas histórias de fé e trabalho aos novos autores que mantêm acesa a chama literária em uma cidade que, muitas vezes, parece ter pressa demais para parar e ler.
1. Raízes e Tradição: O Alicerce de uma Identidade Literária
A história literária de Castanhal começa, como não poderia deixar de ser, na oralidade. Antes de ser elevada à categoria de município em 1932, a região já era um ponto de encontro de viajantes, agricultores e comerciantes que cruzavam a Estrada de Ferro Bragança — a célebre "Maria Fumaça" que conectava o interior a Belém. Essa locomotiva a vapor, que por décadas foi o principal elo da cidade com o mundo, tornou-se um símbolo recorrente no imaginário local: ela representava o progresso, mas também a partida, a saudade de quem ia e a esperança de quem ficava.
As primeiras manifestações literárias organizadas, no entanto, só ganham contornos mais claros no final do século XX, com o fortalecimento de instituições culturais como a Funcast (Fundação Cultural de Castanhal). Foi nesse caldeirão de memórias que surgiram as vozes fundadoras da cena local — aquelas que, mesmo sem o reconhecimento nacional, construíram os alicerces da identidade literária castanhalense.
As Figuras Célebres: Os Nomes que Abriram Caminho
Antônio Prado é, sem dúvida, uma dessas figuras centrais. Jornalista e escritor radicado atualmente em Santa Catarina, Prado dedicou sua obra a resgatar a memória afetiva e histórica da cidade. Seu livro mais emblemático, "Castanhal: Memórias em Pedaços" , lançado por ocasião dos 94 anos de emancipação política do município, é uma verdadeira colcha de retalhos da identidade local. Nele, o autor percorre ruas, personagens e causos que moldaram a "Cidade Morena" — das antigas quitandas à efervescência da feira-livre. O gesto simbólico de doar um exemplar da obra ao acervo da Câmara de Vereadores demonstra seu compromisso em fixar essa memória no patrimônio oficial da cidade.
Heliana Barriga (1951-2026), falecida recentemente aos 75 anos, representa outra vertente fundamental: a literatura infantil e a contação de histórias. Natural de Castanhal, Heliana construiu uma trajetória de mais de quatro décadas dedicada ao público infantojuvenil, percorrendo escolas, feiras de livros e praças com seu repertório de rimas, musicalidade e personagens sapecas. Suas obras, como "A Abelha Abelhuda" e "Perereca Sapeca" , são exemplos perfeitos de como a literatura pode ser, ao mesmo tempo, lúdica e profundamente enraizada na paisagem amazônica. Em 2023, recebeu uma justa homenagem na 26ª edição da Feira Pan-Amazônica do Livro — um reconhecimento tardio, mas significativo, de sua importância para a cena literária paraense como um todo.
Geovane Belo, professor e escritor, também figura entre os nomes que mantêm a tradição literária viva. Natural da região, Geovane cresceu em Castanhal e testemunhou as dificuldades de se fazer cultura em uma cidade que, segundo ele, "não tem muitos eventos desse gênero". Sua participação no sarau "A Noite é uma Palavra", em 2015, ao lado de nomes como Francisco Canindé, Janete dos Santos Oliveira e Raimundo Nazareno da Costa, demonstra sua atuação como articulador cultural e poeta.
2. A Cena Contemporânea: O Sopro Novo da Periferia Paraense
Se a tradição em Castanhal é construída por esses nomes que resistem ao tempo, a cena contemporânea — o foco central desta investigação — revela um cenário mais fragmentado, mas não menos vibrante. A pesquisa indica que Castanhal não possui uma grande estrutura de editoras locais ou coletivos literários formalizados com forte presença digital. No entanto, a produção literária floresce em espaços intermitentes, publicações independentes e na memória afetiva de seus autores, muitos dos quais vivem fora da cidade, mas mantêm Castanhal como matéria-prima de sua criação.
A Poesia da Saudade e os Versos Urbanos
Um dos exemplos mais pungentes dessa literatura contemporânea é o poema "Bem, Castanhal" , publicado no portal Recanto das Letras por um autor identificado apenas como integrante do blog Verdade em Atitude. Os versos sintetizam a alma castanhalense:
"Cresceu cedo neste presente / o desejo de ir querendo voltar. / Olhar adiante, vê-la contente, / a Modelo morena deste Pará."
O poema é um mergulho na geografia afetiva da cidade: menciona a "Saudade" como nome de bairro, a "Estrela" como praça-criança, a Maria Fumaça que "voa sem rumo", o Cristo (provavelmente uma referência ao monumento religioso local), a "terra batida" e o "vento de Igarapé". Essa obra anônima, publicada em um dos maiores portais de poesia amadora do Brasil, representa bem o que há de mais genuíno na literatura castanhalense contemporânea: ela não espera por editoras ou patrocínios — ela simplesmente ocupa a internet, resiste no anonimato e ecoa na alma de quem reconhece naquelas palavras sua própria história.
Os Saraus como Fagulhas de Encontro
A pesquisa revela que Castanhal vive de eventos pontuais, mas impactantes. O sarau "A Noite é uma Palavra" , realizado em outubro de 2015 na sede da Funcast, foi um desses momentos de efervescência. O evento reuniu escritores locais como:
| Autor | Perfil |
|---|---|
| Francisco Canindé | Poeta local |
| Janete dos Santos Oliveira | Escritora |
| Zoraide de Socorro | Poetisa |
| Eleine Jordany Correia | Escritora |
| Mário de Almeida | Poeta |
| Hugo Souza | Poeta |
| Raimundo Nazareno da Costa | Escritor |
| Geovane Belo | Professor e poeta |
O projeto, idealizado pela Fundação Cultural do Pará, tinha como proposta "proclamações literárias" intercaladas com música, criando um ambiente de conexão direta entre artista e público. Na fala de Geovane Belo à época, o sarau é "uma ferramenta de valorização do artista, do poeta. É uma conexão do público com o escritor, além de instigar o surgimento de novos admiradores pela arte".
A pergunta que fica é: o que aconteceu depois? A falta de registros de continuidade desse ou de outros projetos similares nos anos seguintes sugere que Castanhal ainda carece de uma política cultural consistente para a literatura. Os saraus surgem como fagulhas — belas, necessárias, mas efêmeras.
A Ausência de Editoras Locais e a Diáspora Literária
Um dado revelador: a pesquisa não identificou editoras estabelecidas sediadas em Castanhal. Os escritores locais, quando publicam, recorrem a selos de outros municípios — como a Editora Folheando, de Belém, que tem se destacado por publicar autores paraenses sem custos por meio de editais abertos. Embora a reportagem sobre a Folheando não mencione diretamente autores castanhalenses, o modelo de publicação independente que ela representa é a principal via de escape para os escritores da região.
Essa "diáspora literária" — onde o autor nasce em Castanhal, mas publica fora ou permanece no limbo digital — é um traço definidor da cena contemporânea. Autores como Antônio Prado (radicado em Santa Catarina) e Heliana Barriga (que circulava por todo o Pará) exemplificam esse movimento de ida e volta: eles levam Castanhal no peito, mas precisam sair para encontrar estrutura.
3. Temáticas e Obras: A Estética da Saudade e da Resistência
A literatura castanhalense, apesar de sua diversidade, converge para alguns eixos temáticos que revelam a alma da cidade.
Gêneros Predominantes
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Poesia lírica: É, de longe, o gênero mais praticado. A poesia permite a expressão imediata da emoção, da saudade e da paisagem sem os custos e a complexidade da prosa longa.
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Memória e crônica histórica: Antônio Prado, com "Castanhal: Memórias em Pedaços", inaugura um subgênero importante: a crônica memorialística que resgata o passado da cidade a partir de fragmentos, causos e documentos.
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Literatura infantojuvenil: O legado de Heliana Barriga mostra que há público e talento para a literatura feita para crianças, com personagens que dialogam diretamente com o imaginário amazônico — abelhas, pererecas, bichos da mata.
Temas Centrais
1. A Saudade como Matéria-Prima
O poema "Bem, Castanhal" é a síntese perfeita: "o desejo de ir querendo voltar". A literatura local é atravessada por essa dualidade — o orgulho de pertencer a uma cidade que cresce, mas a nostalgia de um tempo em que tudo era "terra batida, poeira infinita da imaginação".
2. A Ferrovia e a Memória Industrial
A "Maria Fumaça" aparece como símbolo recorrente. Ela não é apenas um meio de transporte, mas uma metáfora do progresso que chega e da tradição que se esvai. A Estrada de Ferro Bragança é o cordão umbilical que liga Castanhal a Belém e ao mundo, mas também o trilho pelo qual os jovens partem em busca de oportunidades.
3. A Fé e o Sincrético
A "virgem da fé" mencionada no poema remete à forte tradição católica da cidade, que sedia uma das maiores festas religiosas do nordeste paraense. A religiosidade popular — que mistura o sagrado oficial com as crenças ribeirinhas — é um pano de fundo constante.
4. A Natureza Amazônica Domesticada
Diferente da Amazônia profunda de Abaetetuba, em Castanhal a natureza aparece já em processo de urbanização. O "vento de Igarapé" e a "terra batida" são elementos de uma paisagem que ainda respira floresta, mas que já está sendo asfaltada. Há, nessa poesia, uma elegia pela natureza que se perde.
Exemplos de Obras Recentes
| Autor | Obra | Ano | Gênero | Onde encontrar |
|---|---|---|---|---|
| Antônio Prado | Castanhal: Memórias em Pedaços | 2026 (ou 2025) | Crônica histórica | Acervo da Câmara Municipal de Castanhal |
| Heliana Barriga | A Abelha Abelhuda | Anterior a 2023 | Literatura infantil | Esgotado ou em acervos pessoais |
| Heliana Barriga | Perereca Sapeca | Anterior a 2023 | Literatura infantil | Esgotado ou em acervos pessoais |
| Geovane Belo | Poemas diversos | 2015 e anteriores | Poesia | Participações em antologias e saraus |
| Autor anônimo (Blog Verdade em Atitude) | Bem, Castanhal | Data indeterminada | Poesia | Recanto das Letras |
Conclusão
A cena literária de Castanhal é um retrato fiel da cidade: operosa, resiliente e profundamente afetiva. Não há grandes editoras, livrarias especializadas ou festivais literários anuais de grande porte. O que há são pessoas — professoras como Heliana Barriga que dedicaram a vida a encantar crianças com versos e pererecas; jornalistas como Antônio Prado que se tornaram guardiões da memória; poetas anônimos que publicam versos na internet porque precisam nomear a saudade que sentem da própria cidade.
A literatura castanhalense, como a Maria Fumaça que um dia cruzou suas terras, anda nos trilhos da resistência: lenta, barulhenta, mas inconfundível. Ela não está nas vitrines das grandes livrarias de São Paulo. Ela está na estante da Câmara de Vereadores, nos arquivos empoeirados da Funcast, nas páginas do Recanto das Letras e, sobretudo, na memória viva de quem um dia ouviu uma história de Heliana Barriga ou leu um verso sobre a "Modelo morena deste Pará".
Que venham mais saraus. Que venham mais poetas anônimos. Que a palavra continue a brotar, mesmo em solo de terra batida.
Referências
[1] AGÊNCIA PARÁ. Castanhal recebe sarau poético “A Noite é uma Palavra”. SECOM, 22 out. 2015. Disponível em: https://agenciapara.com.br/noticia/10823/castanhal-recebe-sarau-poetico-a-noite-e-uma-palavra. Acesso em: 10 abr. 2026.
[2] LOBO, Naldo. CASTANHAL: Escritor e jornalista Castanhalense Antônio Prado... Facebook, 29 jan. 2026. Disponível em: https://www.facebook.com/naldo.lobo.7/posts/castanhal-escritor-e-jornalista-castanhalense-ant%C3%B4nio-prado-radicado-em-santa-ca/4311399842433445/. Acesso em: 10 abr. 2026.
[3] HOLOFOTE VIRTUAL. Heliana Barriga: a artista que transformou imaginação em poesia e música em encontro com o mundo. 2 fev. 2026. Disponível em: https://holofotevirtual.com/posts/2026/musica/heliana-barriga-a-voz-que-transformou-a-imaginacao-em-poesia-e-encontro-com-o-mundo/. Acesso em: 10 abr. 2026.
[4] RIBEIRO, Lucas. Editora paraense seleciona escritores de todo o Brasil para publicação de livros sem custos. O Liberal, 17 jan. 2024. Disponível em: https://www.oliberal.com/cultura/editora-paraense-seleciona-escritores-de-todo-o-brasil-para-publicacao-de-livros-sem-custos-1.770477. Acesso em: 10 abr. 2026.
[5] Bem, Castanhal. Recanto das Letras. Disponível em: https://www.recantodasletras.com.br/poesias/4668565. Acesso em: 10 abr. 2026.
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