Este município homenageia em seu nome o poeta romântico autor de 'As Primaveras', cujos versos sobre a saudade da infância e da pátria estão entre os mais célebres e recitados da língua portuguesa.
A Poesia é uma Casa: A Cena Literária de Casimiro de Abreu entre a Saudade e a Resistência
Casimiro de Abreu, na Região dos Lagos do Rio de Janeiro, carrega um fardo poético singular: é a única cidade brasileira batizada em homenagem a um poeta. Antes de ser município, era o distrito de Barra de São João, onde o menino Casimiro José Marques de Abreu viveu sua "aurora da vida". Hoje, a cidade respira literatura por obrigação de memória e, mais do que isso, por uma efervescência silenciosa que brota de saraus, planos municipais e editores independentes.
Ao contrário de grandes centros, onde a literatura muitas vezes se rende ao mercado, Casimiro de Abreu constrói sua cena literária como um ato político de resistência cultural. Aqui, a palavra não é produto — é herança e insurgência.
1. Raízes e Tradição: O Menino das Primaveras
Toda história literária de Casimiro de Abreu começa, inevitavelmente, com o poeta que lhe deu o nome. Casimiro José Marques de Abreu nasceu em 4 de janeiro de 1839, na Fazenda da Prata, em Barra de São João, então distrito de Cabo Frio . Sua trajetória foi breve e intensa: aos 13 anos, contrariando sua vocação poética, foi enviado pelo pai ao Rio de Janeiro para trabalhar no comércio — atividade que odiava . Aos 14, partiu para Portugal, onde encontrou o ambiente intelectual que lhe faltava e escreveu a maior parte de sua obra .
Em 1859, custeado pelo pai — que desaprovava a vocação literária do filho —, publicou "As Primaveras", seu único livro em vida . A obra consagrou versos que se tornariam os mais conhecidos da poesia brasileira:
"Oh! que saudades que eu tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!"
Aos 21 anos, vítima da tuberculose que assolava os poetas ultrarromânticos, Casimiro morreu na fazenda de Indaiaçu, onde hoje se ergue a cidade que leva seu nome . Foi sepultado na Capela de São João Batista, em Barra de São João, conforme seu desejo .
Sua importância para a literatura brasileira é inegável: pertenceu à segunda geração do Romantismo (ultrarromantismo), foi amigo de Machado de Assis e patrono da cadeira nº 6 da Academia Brasileira de Letras . O crítico literário Antonio Candido e o poeta Carlos Drummond de Andrade dedicaram ensaios a sua obra, e José Veríssimo o consagrou como um dos poetas mais populares do século XIX .
Mas o legado de Casimiro não se limita aos livros. Ele deixou para a cidade um desafio silencioso: viver à altura de um nome que é, ele próprio, sinônimo de poesia.
2. A Cena Contemporânea: O Fomento Público e os Saraus como Trincheira
Se a tradição é pesada, a resposta da Casimiro de Abreu contemporânea tem sido surpreendentemente leve e eficaz. O grande marco recente da literatura local é o Plano Municipal do Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas Públicas e Comunitárias, sancionado pela Lei Municipal nº 2420, de 08 de março de 2024 . Este plano coloca a cidade na vanguarda da Região dos Lagos: é o primeiro município das Baixadas Litorâneas a construir políticas públicas para o livro com participação ativa da sociedade civil e total apoio do poder público .
O plano foi gestado no 1º Seminário do Plano Municipal do Livro, realizado em abril de 2022 no Cineteatro Meus Oito Anos . O evento contou com palestrantes como Renata Costa (ex-secretária executiva do Plano Nacional do Livro e Leitura), Maria Chocolate e Natália Reis — figuras do movimento "Tecendo uma Rede de Leitura" — e a mediação de Adriana Izidoro, gestora da Casa de Leitura Casimiro de Abreu – Projeto Leitura Viva .
Adriana Izidoro emerge como uma das principais articuladoras da cena literária local. Foi dela a fala que sintetiza o espírito do plano: "Não basta termos a Lei, é preciso agora que a sociedade civil entenda que para ela funcionar é preciso seguir o que consta no Plano" .
Os Saraus: O Coração Pulsante
A ponta de lança da literatura viva em Casimiro de Abreu são os saraus. O principal deles é o Sarau do Poeta, realizado no Museu Casa de Casimiro de Abreu, em Barra de São João. Sob a direção de Cristiano Pereira, o museu tem se transformado em um centro irradiador de cultura, abrindo suas portas para escritores locais e de cidades vizinhas .
O Sarau da Lei, realizado em abril de 2024 para celebrar a sanção do Plano Municipal do Livro, reuniu escritores, poetas, músicos, grupos de dança (como a Escola Amlid Dance, com dança do ventre e cigana), contadores de histórias e o grupo musical Sopros e Cordas . O evento teve ainda uma tenda para venda de livros e exposição de obras de autores locais.
Entre os escritores que participam ativamente desses saraus, estão nomes que revelam a diversidade da cena:
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Renato Fulgoni: escritor e editor da Aldeia Editora (sediada em São Pedro da Aldeia, mas com forte atuação em Casimiro de Abreu). Lançou a nova edição do livro infantil "Tom e Suas Aventuras em Casimiro de Abreu" durante o Sarau do Poeta, em junho de 2024. A obra ganhou nova diagramação colorida e ilustrações atualizadas .
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Manuel Filho: autor local que lançou o livro "Prisioneiros na Biblioteca" durante o 1º Seminário do Plano Municipal do Livro .
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Rosana Silva, Ana Carolina Moreira, Isac Machado de Moura, Maura Pontes: nomes recorrentes nos saraus, representando a poesia e a prosa de autoria feminina e masculina na região .
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Remy Gilliet: músico e poeta que integra a cena local, mesclando som e palavra .
A Academia e as Instituições
Há também uma institucionalização da produção literária através da Academia Casimirense de Letras (ACALE) . Embora o resultado das buscas não traga os nomes de seus membros, a presença da ACALE nos eventos oficiais indica que a cidade mantém uma estrutura de valorização da produção intelectual local, nos moldes das academias tradicionais, mas com um olhar contemporâneo.
3. Temáticas e Obras: A Saudade que se Fez Ação
Se Casimiro de Abreu (o poeta) eternizou a saudade e a infância como temas maiores, os escritores de Casimiro de Abreu (a cidade) expandiram esse espectro. As temáticas predominantes na produção local contemporânea refletem um diálogo entre a herança romântica e as urgências do presente.
A Literatura Infantil e o Resgate da Memória Local
A obra mais emblemática da nova geração é "Tom e Suas Aventuras em Casimiro de Abreu", de Renato Fulgoni . O livro transita pela literatura infantil com um propósito claro: apresentar a geografia, a história e os afetos da cidade para as novas gerações. É uma literatura de pertencimento, que transforma o espaço urbano em cenário de fantasia.
Poesia e Oralidade: O Sarau como Gênero
A poesia local é essencialmente performática. Autores como Rosana Silva e Maura Pontes declamam versos que falam do cotidiano, das relações afetivas e da própria experiência de ser escritor em uma cidade pequena. O sarau não é apenas o local de divulgação — é, ele próprio, o formato literário predominante: uma poesia que só se completa na voz e no encontro.
A Produção Acadêmica e de Pesquisa
Há também uma veia de literatura técnica e histórica, representada por obras como "Prisioneiros na Biblioteca", de Manuel Filho . O livro, lançado no seminário do plano municipal, sugere um diálogo entre a literatura e as políticas de acesso à leitura — uma ficção que reflete sobre o próprio fazer literário e seu lugar nas instituições.
Temas Emergentes
A análise dos eventos e dos autores participantes permite identificar algumas linhas temáticas recorrentes:
| Temática | Autores/Exemplos | Características |
|---|---|---|
| Infância e memória local | Renato Fulgoni ("Tom e Suas Aventuras") | Literatura infantil que resgata espaços e afetos da cidade |
| Poesia performática | Rosana Silva, Maura Pontes, Isac Machado de Moura | Versos para declamação em saraus; temas do cotidiano e da afetividade |
| Ficção reflexiva | Manuel Filho ("Prisioneiros na Biblioteca") | Narrativas que problematizam o papel da leitura e das bibliotecas |
| Música e palavra | Remy Gilliet | Fusão de poesia e performance musical |
4. Conclusão: Uma Cidade que Escreve seu Futuro
Casimiro de Abreu poderia ter se acomodado na sombra do poeta que a batiza. Poderia ter reduzido sua vida literária a placas, estátuas e ao culto saudosista de "Meus Oito Anos". Em vez disso, escolheu o caminho mais difícil e mais belo: o da ação.
A sanção do Plano Municipal do Livro em 2024 é um marco não apenas para a cidade, mas para toda a Região dos Lagos. Ela demonstra que é possível construir política pública cultural com participação popular, apoio do poder executivo e, acima de tudo, com a energia de articuladoras como Adriana Izidoro .
Os saraus no Museu Casa de Casimiro de Abreu, sob a direção de Cristiano Pereira, são a prova de que a literatura não é uma prática de gabinete, mas uma celebração coletiva . Ao abrir suas portas para escritores como Renato Fulgoni, Manuel Filho, Rosana Silva e tantos outros, o museu se reinventa como um espaço vivo — uma casa onde a poesia não está guardada em vitrines, mas declamada em voz alta.
O maior legado de Casimiro de Abreu (o poeta) foi transformar saudade em arte. O maior legado de Casimiro de Abreu (a cidade) está sendo transformar essa herança em política pública, em sarau, em livro infantil colorido e em encontro. A literatura, aqui, não é passado. É projeto de futuro.
Fontes pesquisadas:
Prefeitura de Casimiro de Abreu (casimirodeabreu.rj.gov.br), Fundação Cultural de Casimiro de Abreu (culturacasimiro.rj.gov.br), Blog do Escritor Renato Fulgoni, Wikipédia, Enciclopédia Itaú Cultural, Brasil Escola, InfoEscola, Infopédia, G1 Região dos Lagos.















