Este município do Estado de Mato Grosso é o berço de José de Mesquita, renomado escritor e um dos fundadores da Academia Mato-Grossense de Letras, autor de obras fundamentais sobre a identidade local.
Nas Margens do Tempo: A Cena Literária e Cultural de Livramento, Mato Grosso
Entre as serras que pontuam a paisagem do sudoeste mato-grossense, a 78 km de Cuiabá, encontra-se Nossa Senhora do Livramento — ou simplesmente Livramento, como é carinhosamente chamada. Fundada em 21 de outubro de 1750, a cidade que completa 275 anos em 2025 é uma das mais antigas do estado, um verdadeiro relicário da história e das tradições populares do Centro-Oeste .
Quando se pensa em literatura em Livramento, é preciso, antes de tudo, compreender que a palavra — na cidade — não se limita ao papel. Ela se manifesta na reza cantada do cururu, na roda de siriri que anima as festas juninas, nos versos declamados nos saraus da Praça da Bandeira e nos causos que os mais velhos contam à sombra dos casarões centenários.
Este artigo mergulha nessa cena para mapear as raízes, as tradições e, principalmente, os agentes contemporâneos que mantêm viva a chama da palavra em Livramento — uma cidade onde a literatura, mais do que escrita, é vivida.
1. Raízes e Tradição: 275 Anos de História e Memória
O Berço da Cultura Matogrossense
Livramento não é apenas uma cidade antiga — é uma testemunha viva da formação cultural de Mato Grosso. Fundada em meados do século XVIII, no auge do ciclo do ouro e da ocupação portuguesa do interior do Brasil, a cidade preserva até hoje traços profundos de sua herança colonial, indígena e africana .
Diferente de centros urbanos como Cuiabá ou Rondonópolis, Livramento não produziu — pelo menos até agora — uma "Academia de Letras" ou grandes nomes reconhecidos pela crítica nacional. Sua produção literária, historicamente, não está em livros publicados por grandes editoras, mas sim na tradição oral, nos causos contados à beira do fogão e nas rezas cantadas que atravessam gerações.
O Quilombo Mata Cavalo e a Memória Viva
Um dos marcos mais significativos da memória cultural livramentense é a comunidade de Mutuca, formada por remanescentes do quilombo Mata Cavalo . É dessa comunidade que emergem as tradições mais autênticas da cultura popular matogrossense: o siriri e o cururu, danças e cantorias que misturam devoção religiosa, celebração da vida e resistência cultural.
"As recordações das antigas danças de siriri e cururu, rezas cantadas e a simplicidade do povo são as lembranças mais presentes no imaginário da população" .
Essas manifestações — embora não sejam "literatura" no sentido canônico do termo — são a matriz poética de Livramento. As letras dos cururus, os versos improvisados dos cantadores e as narrativas que acompanham as danças constituem um patrimônio imaterial que antecede e fundamenta qualquer produção literária escrita na região.
O Documentário "Lembranças" (2024): Registro da Memória
Em 2024, um grupo de nove jovens livramentenses participou da Oficina de Iniciação à Produção Audiovisual do Projeto Cinema Circulante Arne Sucksdorff e produziu um vídeo-documentário de dez minutos intitulado "Lembranças" .
O documentário, exibido no Festival de Cinema de Cuiabá e apresentado durante o Sarau Cultural de 2024, aborda "as perspectivas e expectativas de morar em Livramento, fazendo uma análise entre o presente e o passado" . Entre os depoimentos mais marcantes está o de Dona Maria Nunes dos Santos, 63 anos, moradora do bairro Morro Boa Vista, que declarou gostar de morar em Livramento, mas sentir falta da Livramento de antes .
Esse projeto é significativo porque demonstra uma preocupação das novas gerações com o registro e a preservação da memória local — um primeiro passo para a emergência de uma literatura propriamente dita.
2. A Cena Contemporânea: Saraus e a Força da Palavra Oral
O Sarau Cultural: O Principal Evento Literário da Cidade
Se Livramento não tem, ainda, uma Academia de Letras ou editoras independentes, sua cena literária se manifesta de forma vibrante através do Sarau Cultural, realizado anualmente em frente à Casa da Cultura, na Praça da Bandeira .
O sarau, promovido pela Prefeitura por meio da Coordenadoria Municipal de Cultura, acontece três vezes por ano e integra o calendário das atividades artístico-culturais do município, com destaque especial para as celebrações do aniversário da cidade .
O Que Acontece no Sarau
A programação do Sarau Cultural de Livramento é um reflexo da integração entre literatura, música e tradição popular:
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Declamações de poesias — o coração literário do evento, onde poetas locais — amadores ou experientes — sobem ao palco para dividir seus versos com a comunidade
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Apresentações musicais — com destaque para o grupo de siriri adulto da comunidade de Mutuca, que mantém viva a tradição dos remanescentes do quilombo Mata Cavalo
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Difusão de músicas tradicionais — rasqueado, hinos religiosos e canções que animam o siriri e o cururu
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Performances artísticas e teatro — ampliando o leque de expressões culturais
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Exibição de vídeos e documentários — como "Lembranças", produzido por jovens locais
O sarau, portanto, funciona como um microcosmo da cultura livramentense: um espaço onde a palavra — seja ela dita, cantada ou dançada — é celebrada como elemento central da identidade comunitária.
Os Agentes Culturais: Quem Faz Acontecer
Embora a pesquisa não tenha identificado escritores locais com livros publicados individualmente (um dado que, por si só, revela o estágio ainda embrionário da literatura escrita em Livramento), é possível mapear alguns agentes que movimentam a cena cultural e literária da cidade:
| Nome | Atuação | Observações |
|---|---|---|
| Grupo de siriri da comunidade de Mutuca | Música e dança tradicional | Remanescentes do quilombo Mata Cavalo; mantêm vivas as tradições do siriri e cururu |
| Banda Municipal de Música | Música instrumental e popular | Apresenta-se regularmente nos saraus e eventos da cidade |
| Gonçalo Prado | Compositor e músico | Lançou um novo grupo musical de lambadão durante o Sarau de 2024 |
| Jovens da Oficina de Audiovisual | Produção de documentário | Nove jovens produziram "Lembranças", registrando memórias e perspectivas da cidade |
| Dona Maria Nunes dos Santos | Depoente/memorialista | Aos 63 anos, suas lembranças da "Livramento de antes" foram registradas no documentário |
A Ausência de Editoras e Fanzines
Um dado significativo: não foram encontrados registros de editoras independentes, fanzines ou coletivos literários formais em Livramento. A produção literária local, quando existe, parece circular em âmbito doméstico — em cadernos, folhas avulsas, publicações caseiras que não chegam a compor um acervo público ou a deixar rastros na web.
Isso não significa que não haja poetas ou escritores na cidade. Significa, sim, que a cena literária livramentense ainda está em um estágio anterior à institucionalização — um estágio de oralidade, de registros esparsos e de ausência de canais de divulgação e distribuição.
3. Temáticas e Obras: O Que se Escreve (e se Diz) em Livramento
Gêneros Predominantes
Na ausência de uma produção literária escrita consolidada, é possível identificar os gêneros que emergem da tradição oral e da produção audiovisual local:
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Poesia declamada — apresentada nos saraus, é o gênero mais próximo do que se poderia chamar de "literatura" em Livramento
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Letras de música tradicional — siriri, cururu e rasqueado, com suas narrativas em verso que celebram a vida no campo, a devoção aos santos e as histórias da comunidade
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Memória e depoimento oral — como o de Dona Maria Nunes dos Santos, que se configura como um gênero de história oral de valor literário
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Documentário — "Lembranças" é um exemplo de como a linguagem audiovisual tem sido utilizada para registrar a memória local
Temáticas Recorrentes
As temáticas que emergem da produção cultural livramentense são profundamente enraizadas no território e na história:
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Saudade do passado — a "Livramento de antes" é uma presença constante na fala dos mais velhos, que lamentam as transformações trazidas pelo tempo
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Fé e religiosidade popular — presente nos hinos religiosos e nas rezas cantadas que acompanham o cururu
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Tradições em risco de extinção — o siriri, o cururu, as danças e as cantorias são celebrados como formas de resistência cultural
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Simplicidade do povo — um valor reiteradamente mencionado nos depoimentos e nas apresentações
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Pertencimento e identidade — o que significa ser livramentense, viver na cidade, carregar suas marcas
Obras Recentes de Destaque
| Título | Autor(es) | Ano | Gênero | Observações |
|---|---|---|---|---|
| Lembranças | Nove jovens da Oficina de Audiovisual | 2024 | Documentário | Exibido no Sarau Cultural e no Festival de Cinema de Cuiabá |
| Poemas e declamações do Sarau | Poetas anônimos locais | 2024 | Poesia oral | Apresentados durante a 3ª edição do Sarau Cultural |
| Repertório de siriri e cururu | Grupo da comunidade de Mutuca | — | Música tradicional | Mantido por remanescentes do quilombo Mata Cavalo |
4. Livramento na Literatura: A Cidade como Cenário
Há um fenômeno que merece ser registrado: Livramento, embora não produza muitos escritores, é mencionada em obras literárias e culturais de outras regiões.
O exemplo mais significativo é o do documentário "Lembranças", produzido por jovens locais mas com apoio da Associação dos Profissionais de Cinema e Outras Tecnologias Audiovisuais de Mato Grosso (Amav/Abad/MT) e exibido no Festival de Cinema de Cuiabá . Essa circulação da imagem de Livramento para além de suas fronteiras é um primeiro passo para que a cidade — e suas histórias — ganhe visibilidade no cenário cultural mato-grossense.
Além disso, é provável que Livramento apareça em obras de historiadores e folcloristas que estudam as tradições do Quilombo Mata Cavalo e as manifestações do siriri e cururu, embora essas referências não tenham sido capturadas nesta pesquisa.
Considerações Finais: Uma Cena em Estado de Semente
Livramento não é, ainda, um polo literário. Não tem editoras, não tem livrarias, não tem uma Academia de Letras, não tem escritores com dezenas de títulos publicados. Mas há algo de precioso acontecendo ali.
A cidade que completa 275 anos em 2025 guarda em suas tradições orais, em suas danças, em suas rezas cantadas e em seus saraus a matriz de uma literatura que ainda não se materializou em livro — mas que pulsa nas praças, nas comunidades quilombolas e na memória de seus anciãos.
O Sarau Cultural, o documentário "Lembranças" e a resistência do grupo de siriri da comunidade de Mutuca são sinais de que a palavra, em Livramento, não se cala. Ela apenas espera — talvez — por novos canais de registro, por novas gerações de escritores que transformem em poesia escrita os versos que hoje só existem na oralidade.
Se Rondonópolis é a "capital regional da literatura" de Mato Grosso, Livramento é sua memória viva — o lugar onde as tradições que alimentam a literatura mato-grossense ainda respiram com força.
Referências
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[1] Repórter News. Livramento divulga suas tradições em sarau. 20 out. 2024. Disponível em: https://www.reporternews.com.br/noticia/339088/Livramento_divulga_suas_tradicoes_em_sarau_
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[2] Portal E-Brasil. Escritores de MS doam 900 exemplares para bibliotecas. 16 set. 2025. Disponível em: https://portalebrasil.com.br/escritores-de-ms-doam-900-exemplares-para-bibliotecas/ (nota: conteúdo sobre Mato Grosso do Sul, não diretamente relacionado a Livramento-MT)
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👥 Pesquisa por Guilherme Felipe, Curadoria Sílvio Lôbo















