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Outro dia,
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Este texto é fictício, qualquer semelhança com pessoas ou fatos é mera coincidência.

    Ninguém sabe realmente do que um homem é capaz. Tinha 19 anos, morava sozinho num cubículo com banheiro e o aluguel levava quase a metade do que ganhava como repositor de estoque num supermercado. O restante pagava numa faculdade de Letras feitas precariamente no horário noturno, lhe restava pouco ou nenhum dinheiro. Seus gastos de ônibus eram da economia feita com a venda os passes de ônibus e vales-alimentação. Um nada que se multiplicava, trocados aparentemente insignificantes eram depositados numa poupança bancária. Uma vida urbana, pobre e rústica.

    Horário de verão, ainda era escuro. Lavava o rosto esfregando o com força. Comia algumas bolachas de sal e engolia um gole de água. Não se sentia pobre. Era ele, Paulo Cesar, despertava mais um dia, vestia o uniforme deixado sobre o fogão de tampa baixada, envolvia-se numa jaqueta jeans já surrada e abria a porta de seu quarto deixando sair um bafo quente, que pareceu acordar o condomínio de 12 apartamentos, todos maiores que o seu.

    Estava em seu posto as sete e meia, as oito horas quando passou o cartão que marcava o começo de seu expediente de trabalho, já tinha esvaziado dois carrinhos de enlatados. Era este seu trabalho. Puxar o carrinho do estoque até as prateleiras e lá posicionar um por um os enlatados, as sacos, frios, frutas e legumes. Era assim mais de dois anos, mas parecia bem mais. Parecia uma vida toda.

    Ao meio dia começava seu almoço, ele apenas caminhava para um canto da empresa. Sempre tinha fome, mas nem sempre vontade de comer. Havia algo que não o deixava ter prazer. Ele sabia o que era, mas não lhe permitia pensar. Ficava no refeitório o suficiente para comer, então pegava alguns pãezinhos colocava na bolsa, estes seriam seu jantar, e dali caminhava até a praça a três rua de lá, ali esperava a hora de voltar.

    Oito horas de trabalho diário, dividido por duas horas de almoço, logo dez horas de seu dia era lá sobre o laranjado forte das paredes. Saia já com passos rápidos, não podia perder o próximo ônibus, e sempre chegava à faculdade às dezenove. As aulas estavam marcadas pra começar as dezoito e quarenta e cinco, mas a realidade de Paulo Cesar não era muito diferente dos outros ali, passada as dezenove, também o professor entraria na sala.

    As aulas eram bem diferentes das grandes faculdades, o professor já conhecido dos últimos quatro semestres e com absoluta certeza estaria nos quatro que faltavam estava ali. Já disseram que nenhum professor teria competência para as matérias de Lingüística, Gramática, Literatura Brasileira, Portuguesa. Mas ali tudo era possível, se não de realizar, seria de fazer. No intervalo comia os pães guardados em sua bolsa, e as vinte e duas horas caminhava para o ponto esperar o ônibus.

    A faculdade era mais distante da sua casa que o supermercado. Mas naquela hora o ônibus voava, pelas ruas e pontos vazios. Então chegava em menos do que levava pra ir. As vinte e três horas e quarenta minutos já estava banhado e deitado em sua cama pronto pra sonhar.

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